E o mais curioso é que ninguém estranha. Já se aceita como parte do dia a dia, como se fosse normal pagar cada vez mais por algo que continua exatamente igual. É só mais uma confirmação de que o jogo está montado de forma a que o resultado nunca mude.
Parar numa bomba de combustível já não é um gesto automático. É um momento de consciência. O olhar evita os litros e fixa-se no valor, que sobe com uma precisão cirúrgica. Aquilo não mede combustível, mede dependência. E a nossa está profundamente enraizada. O ritmo a que o número cresce apenas confirma que há sistemas afinados para funcionar contra quem deles não pode abdicar.
Fala-se de mercado como se fosse uma entidade neutra, autorregulada e inevitável. Mas a neutralidade termina onde começam os interesses. Quando o preço do petróleo sobe, a repercussão é imediata, automática. Agora quando desce, não há pressa. O mal está feito.
A ideia de mobilidade sustentável surge frequentemente como resposta, no entanto, para a maioria, é apenas teoria. A realidade impõe distâncias, horários, obrigações. Andar a pé até poderia ser uma opção, se não precisássemos de fazer vários kms por dia, o que acaba por não ser prático para cumprir horários. E convenhamos, se o destino não for aqui ao lado, já não é mobilidade sustentável, é uma peregrinação, e isto já não vai ao sítio com promessas à espera duma intervenção divina. Até porque, no dia em que o divino começar a ganhar fama, o Estado arranjará logo uma maneira de lhe aplicar uma taxa qualquer.
Vivemos num sistema global onde o dinheiro não é apenas um meio de troca, mas antes um instrumento de poder. Onde decisões que afetam milhões são tomadas longe de quem realmente acaba por sofrer as consequências. O combustível é uma expressão visível da normalização de um modelo em que o essencial se torna progressivamente inacessível, não por que se torne escasso, mas por mera estratégia.
Por muito que se reclame, acabamos por cumprir, mesmo que a contragosto. O sistema não precisa de consenso, basta-lhe continuidade. E essa continuidade é garantida todos os dias, cada vez que paramos na bomba e abastecemos os nossos veículos.
Por isso mais vale aceitar a realidade, continuar a abastecer, pagar e seguir viagem. Não há alternativa funcional. O sistema não precisa que acreditemos nele, desde que continuemos a abrir os cordões à bolsa com a mesma resignação de quem paga uma multa por estar vivo. A liberdade de escolha resume-se apenas ao teu poder de escolher a bomba onde vais ser assaltado.




