Quinta-feira, 4 de Junho de 2026

Rivalidades

Ultimamente tenho a sensação de que muitas relações laborais deixaram de ter aquela essência bonita do trabalho em equipa e passaram a ser competições ao estilo daquela série coreana cujo valor do prémio é tanto maior quanto menor o número de participantes.

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Já não é sobre caminhar lado a lado, nem é sobre quem chega primeiro à meta, é saber quem chega inteiro, mesmo que ninguém saiba bem onde é a meta. A rivalidade entra disfarçada de valores corporativos fofos, e quando damos por ela já está a contaminar o ambiente todo.

Quase toda a gente diz que o espírito de equipa deve ser valorizado, mas depois vive como se estivesse numa montra constante. Há sempre alguém a sublinhar o próprio papel, a importância das suas tarefas, o peso das suas responsabilidades. Como se admitir que todos são necessários diminuísse o valor individual. E não diminui. Só desmonta a ilusão de protagonismo exclusivo.

No fundo, somos peças do mesmo motor. Não é uma metáfora bonita, é só lógica básica. Quando uma peça falha, o sistema inteiro ressente-se. Não interessa se a peça é pequena ou grande, visível ou invisível. E, mesmo assim, há quem prefira competir internamente em vez de perceber que o desgaste coletivo acaba por travar todo o processo, e queiramos ou não, quando o processo para, é mau para todos.

Talvez esta necessidade de se impor venha dum sentimento de insegurança cada vez mais evidente nas pessoas. Somos humanos, portanto, falíveis, ou pelo menos deveríamos admitir isso sem medo. Quanto mais alguém precisa de provar que é essencial, mais parece ter medo de deixar de o ser. O problema é que essa postura cria distância, quebra confiança e transforma colegas em adversários. Aos poucos, deixa de haver espaço para partilha e entreajuda, porque cada gesto passa a ser interpretado como estratégia.

Quando o valor pessoal depende de estar sempre acima dos outros, a relação deixa de ser humana e passa a ser hierárquica por ego. E num ambiente assim ninguém cresce de verdade. Uns vivem cansados de provar, outros cansados de ouvir, e apesar do motor continuar a funcionar, já só anda aos solavancos.

Porque precisamos tanto de ser mais do que o outro para nos sentirmos suficientes? Enquanto a resposta a essa pergunta não for honesta, vamos continuar a ver pessoas a disputar protagonismo dentro do mesmo barco, esquecendo que remar em direções diferentes nunca leva ninguém muito longe, quando muito, cansamo-nos todos no processo e ficamos à deriva, o que é mau, diga-se de passagem. Muito mau.

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