Mas todo o verão tem um fim, e a seguir vem a ira do regresso ao trabalho e o drama do Orçamento do Estado. E, se o Governo continuar a meter água e a guilhotina parlamentar ditar eleições antecipadas, cenário ainda improvável, convém desde já desenhar as falhas tectónicas que irão dominar uma rentrée que rapidamente se pode transformar em campanha eleitoral: a imigração e a crise do custo de vida.
A questão da imigração, que para demasiados portugueses, tristemente, ainda é dominada pela discriminação racial, representa para muitos outros um conflito latente sobre o que é Portugal e o que significa ser português, sobretudo à medida que se torna evidente que muitos dos imigrantes chegados nos últimos anos ficaram por cá e poderão adquirir a cidadania. Há quem, como eu, entenda que o essencial para viver em Portugal é respeitar a Constituição e acreditar nos valores da democracia. Para outros, ser português exigirá ter nascido português e contar muitas gerações de antepassados. É uma ideia firmemente enraizada no imaginário português e europeu, como mostram os recentes comentários do antigo presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy, ao escrever que a seleção francesa não tem franceses. O populismo nacionalista de direita adotou-a também em Portugal, sustentando que ser português não é apenas aderir a certos ideais e que a pertença à nação pode ser inacessível ao imigrante recém-chegado, fechada numa herança ancestral profunda: os oito séculos, a língua de Camões, a matriz católica, o sangue e o solo. Nestes debates, os seus apóstolos apresentam-se como sitiados, ameaçados por uma esquerda antipatriótica e por um centro mole e elitista.
Perante este quadro, é preciso afirmar que é possível um patriotismo assente no constitucionalismo e na democracia, resposta justa aos gritos de liberdade tantas vezes silenciados na nossa história: uma cultura portuguesa e europeia, na qual o compromisso formal com estes princípios se entrelaça com hábitos e práticas que o tornam significativo, eficaz e real. Uma cultura aberta aos recém-chegados, onde a assimilação continuaria a ser um processo, e não um ato único de assentimento intelectual; um processo exigente, mas alcançável, que não está reservado a quem nasceu português. Apoiar a democracia portuguesa e a sua Constituição significa acreditar que os seus princípios fundamentais são certos, bons e justos, melhores do que as alternativas: uma arquitetura moral que vale a pena abraçar, e não apenas obedecer. Uma arquitetura assente na dignidade da pessoa humana, noção que a generalidade da sociedade portuguesa é capaz de abraçar. E sim, incluo o catolicismo, onde existe uma compreensão da igualdade largamente difundida, ainda que nem sempre praticada.
A nação está constituída há muitos séculos, mas a sua ideia ainda está em debate, como deve ser. É preciso acreditar que ser português é mais do que ser um “português de gema”, e que essa experiência coexiste perfeitamente com a cultura e a prática histórica concreta de Portugal. No próximo artigo, abordarei o problema do custo de vida.





