Todo o centro-direita e direita, depois da derrota, rasgou as suas vestes católicas e tornou-se “agnóstico” da segunda volta, não declarando apoio a nenhum dos dois candidatos. Estão agora oficialmente, por falta de ideias e/ou espinha dorsal, a fazer de idiotas úteis da extrema-direita. Em abono da verdade, o idiota útil mor, Cotrim de Figueiredo, já o tinha feito durante a campanha. Já tinha dito num daqueles podcasts, que disfarçam política de comédia light, que prefere o 25 de Dezembro ao 25 de Abril. Hahaha?! E já tinha insinuado, junto ao seu amiguinho Santana Lopes, que as mulheres deviam pedir permissão ao homem para interromper a gravidez. Veio agora armar-se em tonto de última hora, e dizer que não excluía votar na extrema-direita. Das duas, três, ou está a fazer uma jogada tática que ninguém percebe, ou teve medo de perder o voto dos fartos dos partidos antigos, ou é um reacionário disfarçado de Emporio Armani liberal. Militantes e apoiantes da IL, qual destas é? A última, como é óbvio!
Pela milionésima vez, a extrema-direita portuguesa, assim como o resto da extrema-direita europeia, norte-americana e da América Latina, não é democrática. Não gosta de liberdade de opinião. Não gosta da diferença. Não gosta da igualdade das mulheres. Não gosta da educação e da saúde pública e sobretudo não gosta da alternância política. Ama os estados policiais e adora o Vladimir Putin, um ditador sanguinário que lidera um país cheio de recursos naturais e que ainda assim tem um rendimento per capita inferior ao português! Quando e se a extrema-direita chegar ao poder, vai fazer de tudo, tudo, para não sair de lá, como Putin e o seu acólito Orbán já fizeram. E, pelo caminho, enlamear todos os que se atravessarem à sua frente.
Isto traz-nos a um último ponto. Os partidos, os antigos, mas também os novos, vão ter de se abrir e perder algum controlo sobre quem vai a votos, se não quiserem que Portugal seja governado pela extrema-direita. Em Portugal, o partido de extrema-direita tem sido aquele que tem permitido que políticos esquecidos ou aqueles cidadãos que nunca chegariam a ter aspirações a concorrer a um cargo político, pudessem apresentar-se. É certo que é um partido novo e sem militantes que possam aparecer em todos os boletins de voto. Mas temos de reconhecer que, no essencial, as pessoas estão fartas das mesmas caras ou dos mesmos carreiristas que aparecem para mandar nos partidos tradicionais. É óbvio que quem está bem posicionado dentro de um partido, na maioria das vezes, vai reagir contra isto com todas as fibras do seu ser. Apostou muito na sua vida na política e não quer ceder espaço a um qualquer que o impeça de ter o seu salário político e mandar. Mas valores mais altos se levantam. Ou é isto ou é o fim destes partidos. O tempo dos políticos profissionais e dos tecnocratas acabou. Quem não perceber isso está a contribuir para o fim da democracia. Os partidos em Portugal não precisam de alterar a Constituição nem as leis eleitorais para fazer eleições primárias, incluindo com militantes e simpatizantes, para escolher os seus candidatos. A realização de primárias nos partidos representaria um incremento democrático de uma dimensão que em Portugal teria um único precedente, o 25 de Abril. Mais democracia, mais abertura, mais liberdade. Uma democracia menos elitista e menos aristocrática, no sentido aristotélico de governo de poucos considerados “melhores”, e mais participativa. E digo isto como militante de base do Partido Socialista Português, para não deixar dúvidas a ninguém. No fim, não se trata de uma guerra interna dos partidos, mas de escolher entre uma democracia viva, aberta e participativa, ou um país entregue à extrema-direita.





