Quinta-feira, 21 de Maio de 2026
João Ferreira
João Ferreira
Investigador, Professor do Ensino Superior

O senhor James e o doutor Watson

O Doutor James Watson, que morreu a 6 de novembro, foi um venerando cientista que codescobriu (com Francis Crick, Rosalind Franklin e Maurice Wilkins) a estrutura de dupla hélice do ADN.

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Tinha a fama de ser, no geral, uma pessoa de voz suave e ponderada, ainda que teimosa. Por outro lado, o Doutor Watson era também conhecido por passear pelo campus de Cold Spring Harbour, em Long Island, carregando um exemplar do “The Bell Curve – A curva do sino”, um livro de Charles Murray e Richard Herrnstein. Neste livro, os autores sustentam que a inteligência humana é fortemente influenciada por fatores genéticos e ambientais, o que constitui um melhor fator preditivo do rendimento financeiro, do desempenho profissional e até da propensão para a criminalidade do que o estatuto socioeconómico dos pais. O livro foi, há data da publicação, altamente controverso porque os autores asseguravam ligações entre raça e inteligência e sugeriam propostas políticas com base nessas alegadas ligações. O livro foi já largamente desacreditado, não só porque foi financiado por um grupo supremacista branco, o Pionner Fund, mas também porque os resultados estatísticos, sabe-se hoje, foram manipulados para se ajustarem às conclusões dos autores. É também evidente que a ideia da hereditariedade puramente genética contém problemas conceptuais. Desde logo, porque a hereditariedade não tem de ser genética. Há alguns anos, quando apenas as mulheres usavam brincos, a hereditariedade de “ter brinco” era elevada. A diferença entre ter ou não ter brinco resultava apenas da diferença cromossómica XX vs. XY. Ainda assim, ninguém diria que usar brincos, ou gravatas para o efeito, está nos genes, ou que há um gene do brinco. Inversamente, há características que são determinadas geneticamente, mas quase não são hereditárias. O número de dedos de uma mão humana, por exemplo, é geneticamente determinado. Contudo, a hereditariedade deste traço é muito baixa, porque as variações no número de dedos são, na maioria dos casos, causadas por fatores ambientais.

O que terá levado uma pessoa da inteligência de James Watson a insistir obstinadamente numa ligação entre raça e inteligência e a arruinar a sua reputação? Um homem que construiu a sua carreira estratosférica com base na total dedicação ao ADN e à biologia molecular, que lhe valeu um Prémio Nobel e a liderança do Projeto do Genoma Humano. Um dos cientistas mais importantes do século XX que se deixou levar a pensar, insistindo contra a ciência e a história, que faz sentido comparar o QI entre raças.

O determinismo genético é uma daquelas ideias de “uma única solução tecno-milagrosa resolve tudo” em que os visionários podem cair, e a história da genética está cheia de descobertas que prometem acabar com a doença, tornar-nos mais inteligentes e melhorar a nossa sociedade. Somos atraídos por soluções mágicas e definitivas que vão conseguir resolver problemas sociais complexos. E é demasiado fácil para alguém que faz uma descoberta verdadeiramente profunda pensar que encontrou o segredo da vida, do ambiente ou da doença. Pelo menos é isso que pensa o seu biógrafo, Nathaniel Comfort.

Watson disse: “Antes pensávamos que o nosso destino estava nas estrelas. Agora sabemos que, em grande medida, o nosso destino está nos nossos genes.”

Tinha uma obsessão com os genes, claro está, o que é aterrador. Se achares que existe uma única essência fundamental que te define mais do que qualquer outra coisa, o que é que se segue? Sabemos bem a resposta.

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