Quinta-feira, 21 de Maio de 2026
João Ferreira
João Ferreira
Investigador, Professor do Ensino Superior

Será que não há esperança para este país e este mundo?

É, quiçá, um sinal dos tempos, mas, para todos os lados para onde me viro, encontro sempre descontentes.

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Nem tanto consigo próprios ou com os mais próximos, mas com a situação do país e do mundo. E, nestas coisas como noutras, pouco importa se a realidade é mesmo assim ou não. Como disse Lee Atwater, a perceção é a realidade.

Não me surpreende, então, que, num inquérito do Reuters Institute, 40% dos inquiridos em cerca de 50 países tenham afirmado que, por vezes ou frequentemente, evitam por completo as notícias, o que representa um aumento face aos 29% registados em 2017.

E haverá motivos? Comecemos por casa: há cerca de um mês, o barómetro da Aximage para o Diário de Notícias indicava que 68% dos portugueses consideravam que o trabalho de Luís Montenegro e do Governo tem sido mau. Há pior. Em França, 90% das pessoas questionadas pela Ipsos consideravam que o seu país está no caminho errado. No Reino Unido, eram 79%; na Alemanha, 77%. E, apesar de todas as controvérsias, estupidezes e malfeitorias, nos Estados Unidos apenas 60% pensam o mesmo. Para alguém que, como eu, é profundamente crítico da administração Trump e da extrema-direita que ela representa, tanto lá como por toda a Europa, isto é desalentador.

Mas, parafraseando, nem tudo são rosas no reino da Dinamarca. Quando tudo indicava que a Ucrânia se aproximava de um ponto de inflexão negativo, Putin parece hoje estranhamente enfraquecido, enquanto o Kremlin e Moscovo se revelam atingíveis por drones mortíferos. Em Israel, silenciosamente, cresce uma oposição determinada a vencer as eleições de outubro e a afastar a liderança tóxica e inenarrável de Netanyahu. E Trump? Digamos apenas que o Irão já se “salvou” de ser completamente obliterado pelos EUA umas dez vezes. E, enquanto isso, a inflação continua a corroer o quotidiano.

Há algo que começa a quebrar-se. Posso estar enganado, mas começo a ver, mais cedo do que esperava, uma fenda no muro da extrema-direita mundial. Sim, mesmo apesar dos enormes resultados do Reform UK no Reino Unido. A sua narrativa começa a esbarrar, a alta velocidade, contra a dureza dos factos. Contra a sua vontade, mas sobretudo devido às suas próprias ações: ineptas, criminosas e destrutivas.

Alguns de nós sabíamos desde o início que a extrema-direita trafica diariamente na demagogia. E, embora por vezes tropece num facto, não conseguiria reconhecer a verdade nem que ela lhe mordesse de volta. Os factos em que ocasionalmente tropeça são os da ingerência, da torpeza e da corrupção dos partidos do poder, expostos desde a guerra do Iraque e aprofundados pela crise das dívidas soberanas.

Estou convencido de que a extrema-direita é um embuste de fio a pavio. Consigo enumerar os argumentos um a um, alinhá-los até. E, no entanto, identificar o ponto exato a partir do qual o seu crescimento se inverterá pode ser um exercício fútil. É como o teorema da incompletude de Gödel: há verdades evidentes dentro do sistema que, justamente por estarmos dentro dele, não conseguem ser demonstradas a partir do seu interior. A obtusidade da extrema-direita é uma delas. Salta à vista. Felizmente, a sua incompetência tem vindo em auxílio dos incautos.

Já sei o que vão dizer: “Salvar quem? Montenegro e afins?” Não. De todo. O ultramontanismo, o sobressalto perante a suposta substituição “cultural” e o saudosismo fascistoide são apenas sintomas da doença. A cura é outra e exigirá outros sacrifícios. Mas a extrema-direita construiu-se sobre a perceção; o problema é que a realidade começou finalmente a cobrar a fatura.

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