Segunda-feira, 15 de Junho de 2026
João Ferreira
João Ferreira
Investigador, Professor do Ensino Superior

Será que não há esperança para este país e este mundo?

É, quiçá, um sinal dos tempos, mas, para todos os lados para onde me viro, encontro sempre descontentes.

Nem tanto consigo próprios ou com os mais próximos, mas com a situação do país e do mundo. E, nestas coisas como noutras, pouco importa se a realidade é mesmo assim ou não. Como disse Lee Atwater, a perceção é a realidade.

Não me surpreende, então, que, num inquérito do Reuters Institute, 40% dos inquiridos em cerca de 50 países tenham afirmado que, por vezes ou frequentemente, evitam por completo as notícias, o que representa um aumento face aos 29% registados em 2017.

E haverá motivos? Comecemos por casa: há cerca de um mês, o barómetro da Aximage para o Diário de Notícias indicava que 68% dos portugueses consideravam que o trabalho de Luís Montenegro e do Governo tem sido mau. Há pior. Em França, 90% das pessoas questionadas pela Ipsos consideravam que o seu país está no caminho errado. No Reino Unido, eram 79%; na Alemanha, 77%. E, apesar de todas as controvérsias, estupidezes e malfeitorias, nos Estados Unidos apenas 60% pensam o mesmo. Para alguém que, como eu, é profundamente crítico da administração Trump e da extrema-direita que ela representa, tanto lá como por toda a Europa, isto é desalentador.

Mas, parafraseando, nem tudo são rosas no reino da Dinamarca. Quando tudo indicava que a Ucrânia se aproximava de um ponto de inflexão negativo, Putin parece hoje estranhamente enfraquecido, enquanto o Kremlin e Moscovo se revelam atingíveis por drones mortíferos. Em Israel, silenciosamente, cresce uma oposição determinada a vencer as eleições de outubro e a afastar a liderança tóxica e inenarrável de Netanyahu. E Trump? Digamos apenas que o Irão já se “salvou” de ser completamente obliterado pelos EUA umas dez vezes. E, enquanto isso, a inflação continua a corroer o quotidiano.

-PUB-

Há algo que começa a quebrar-se. Posso estar enganado, mas começo a ver, mais cedo do que esperava, uma fenda no muro da extrema-direita mundial. Sim, mesmo apesar dos enormes resultados do Reform UK no Reino Unido. A sua narrativa começa a esbarrar, a alta velocidade, contra a dureza dos factos. Contra a sua vontade, mas sobretudo devido às suas próprias ações: ineptas, criminosas e destrutivas.

Alguns de nós sabíamos desde o início que a extrema-direita trafica diariamente na demagogia. E, embora por vezes tropece num facto, não conseguiria reconhecer a verdade nem que ela lhe mordesse de volta. Os factos em que ocasionalmente tropeça são os da ingerência, da torpeza e da corrupção dos partidos do poder, expostos desde a guerra do Iraque e aprofundados pela crise das dívidas soberanas.

Estou convencido de que a extrema-direita é um embuste de fio a pavio. Consigo enumerar os argumentos um a um, alinhá-los até. E, no entanto, identificar o ponto exato a partir do qual o seu crescimento se inverterá pode ser um exercício fútil. É como o teorema da incompletude de Gödel: há verdades evidentes dentro do sistema que, justamente por estarmos dentro dele, não conseguem ser demonstradas a partir do seu interior. A obtusidade da extrema-direita é uma delas. Salta à vista. Felizmente, a sua incompetência tem vindo em auxílio dos incautos.

Já sei o que vão dizer: “Salvar quem? Montenegro e afins?” Não. De todo. O ultramontanismo, o sobressalto perante a suposta substituição “cultural” e o saudosismo fascistoide são apenas sintomas da doença. A cura é outra e exigirá outros sacrifícios. Mas a extrema-direita construiu-se sobre a perceção; o problema é que a realidade começou finalmente a cobrar a fatura.

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