E, apesar de não ser bem assim, existem danos substanciais em muitas zonas que vão exigir do país aquilo que os portugueses mais temem que lhes seja pedido: dinheiro! Dinheiro para reparar casas e infraestruturas, pagar salários e prestar assistência às empresas. Dinheiro que não sabemos se temos, mas que queríamos ter. Afinal, um país cronicamente pobre como este o que é que pode fazer?
Bem, cronicamente não. Pese embora Portugal ser, aos dias de hoje, uma das economias menos prósperas da União Europeia, nem sempre foi assim. Segundo dados do Projeto Maddison e de estudos de história económica, incluindo de Nuno Palma e Jaime Reis, Portugal figurava entre os países europeus com maior PIB per capita em 1750, medido em paridade de poder de compra. Apenas os Países Baixos (3.777$), a Itália (2.703$) e o Reino Unido (2.702$) apresentavam, em meados do século XVIII, um PIB per capita superior ao de Portugal (2.184$). O valor português era cerca de 60% mais elevado do que o espanhol, 40% superior ao sueco e 30% acima do alemão e do francês. Foi decrescendo progressivamente durante a Revolução Industrial na Europa, no final do século XVIII e ao longo do século XIX.
Portugal foi um dos países europeus que mais tardiamente se industrializou e, desde então, com os choques das invasões napoleónicas e da guerra civil, chegou aos dias de hoje com um PIB per capita de 26.635$, que compara mal com o resto da UE. Na atualidade, os Países Baixos são primeiros desta lista (42.600$), seguidos pela Suécia (40.100$) e pela Bélgica (39.300$). Claro que não ajuda que de lá para cá Portugal tenha sido uns dos países que menos investiu no seu bem mais precioso, o capital humano, em contraciclo com os seus parceiros, com níveis de educação e literacia miseráveis, apenas corrigido de forma séria pela democracia pós 25 de Abril, honra se lhe seja feita. Portugal no século XX subiu do fundo dos fundos de 1955, de 38% do PIB per capita da UE para 55% em 1973. Hoje, está aproximadamente nos 80% da média da UE. Fomos levantados do chão.
Se formos realistas para connosco próprios, não somos um país rico, mas também não somos um país pobre. E a qualidade e eficiência da nossa assistência àqueles que mais sofreram com as tempestades vai depender tanto do dinheiro que consigamos utilizar, como da qualidade e eficiência das nossas soluções.
Mas também convém refletir se os melhores dias desta nação estão mesmo bem lá atrás ou se, pelo contrário, depois deste período de convergência da democracia, podem regressar. Pelo menos sabemos que a cauda da europa não é uma condição irreparável. Mas também começamos a aperceber-nos que Portugal precisa de se reinventar. E de aproveitar as oportunidades que a nova ordem mundial nos vai apresentar. Porque não devíamos perder, outra vez, mais um “comboio”.





