Quinta-feira, 4 de Junho de 2026
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Memórias da Escola Primária

Nevava! O chão estava pintado de branco, do céu, a neve caía em grandes flocos.

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A natureza era bela, tão bela como os melhores sonhos.

A escola esperava por nós, era proibido faltar, mesmo com os fracos agasalhos, ir à escola era como ir à missa aos domingos. O padre sabia quem faltava e torcia o nariz aos faltosos… também os professores do Ensino Primário eram implacáveis e castigadores para os ausentes…

Nesse dia de janeiro de 1960, os alunos viviam um pequeno milagre, julgando que os professores, devido ao forte nevão, não iriam à escola.

A expectativa era enorme! Frente à Escola do Pisco, todos olhávamos para a Curva do Tonto, lugar onde surgiriam os mestres.

A turma sonhava com a ausência dos professores. Mas eis que, na curva, surge o jovem professor, ligeiro e saltitante, procurando libertar-se do peso da neve enquanto caminhava. Olhava, de longe, para nós. Levantava a cabeça para ver melhor.

Desilusão para os alunos.

Para mim, porém, foi uma alegria indisfarçável, porque eu gostava de aprender. Tão contente fiquei que saltei o muro tosco e coloquei-me diante da porta da escola.

O professor, jovem e esguio, viu-me e julgou-me mal.

Já dentro da sala, a primeira reação do Mestre foi castigar-me implacavelmente com vinte reguadas – dez em cada mão. Antes do castigo, implorei-lhe:

– Professor, bata com menos força na mão esquerda.

– Mas porquê? – questionou, curioso com o meu pedido.

Respondi lesto:

– Professor, eu preciso da mão direita para escrever…

O Mestre, complacente, olhou a sensibilidade dos meus olhos e a franqueza do meu rosto, respondendo então:

– Está bem, menino, vou ser brando nas duas mãos, já que me dizes que gostas de escrever.

Nessa aula eu escrevia devagar, olhava para o Mestre de forma diferente, demorando-me em silêncios como sombras noturnas.

Ele olhava-me cúmplice, prisioneiro de um comportamento, ora passivo, ora reativo.

O momento era solene, arrefecido por pensamentos obscuros.

Quando cheguei a casa, fui questionado pela minha mãe:

– Tu que tens, meu filho, que vens tão triste?

Olhei para os olhos dela:

– O professor deu-me vinte reguadas, mas já não me dói nada.

– Deixa lá, vou estrelar-te um ovo acabado de sair da Pita Piloa.

E assim, entre o afago da mãe e a maravilhosa neve que ainda caía, fui brincar com um bando de canalha, na mais pura felicidade…

No dia seguinte, o professor ajudou-me de forma muito particular com o desenho de um galo, pois eu tinha pouco jeito para desenhar animais e muito menos galináceos.

O resto do ano, na Escola do Pisco, decorreu com normalidade. O jovem professor tratou-me sempre com melodiosa delicadeza, talvez porque também ele gostasse de música como eu.

E assobiava com frequência, como canção cintilante, que desperta e liberta.

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