A natureza era bela, tão bela como os melhores sonhos.
A escola esperava por nós, era proibido faltar, mesmo com os fracos agasalhos, ir à escola era como ir à missa aos domingos. O padre sabia quem faltava e torcia o nariz aos faltosos… também os professores do Ensino Primário eram implacáveis e castigadores para os ausentes…
Nesse dia de janeiro de 1960, os alunos viviam um pequeno milagre, julgando que os professores, devido ao forte nevão, não iriam à escola.
A expectativa era enorme! Frente à Escola do Pisco, todos olhávamos para a Curva do Tonto, lugar onde surgiriam os mestres.
A turma sonhava com a ausência dos professores. Mas eis que, na curva, surge o jovem professor, ligeiro e saltitante, procurando libertar-se do peso da neve enquanto caminhava. Olhava, de longe, para nós. Levantava a cabeça para ver melhor.
Desilusão para os alunos.
Para mim, porém, foi uma alegria indisfarçável, porque eu gostava de aprender. Tão contente fiquei que saltei o muro tosco e coloquei-me diante da porta da escola.
O professor, jovem e esguio, viu-me e julgou-me mal.
Já dentro da sala, a primeira reação do Mestre foi castigar-me implacavelmente com vinte reguadas – dez em cada mão. Antes do castigo, implorei-lhe:
– Professor, bata com menos força na mão esquerda.
– Mas porquê? – questionou, curioso com o meu pedido.
Respondi lesto:
– Professor, eu preciso da mão direita para escrever…
O Mestre, complacente, olhou a sensibilidade dos meus olhos e a franqueza do meu rosto, respondendo então:
– Está bem, menino, vou ser brando nas duas mãos, já que me dizes que gostas de escrever.
Nessa aula eu escrevia devagar, olhava para o Mestre de forma diferente, demorando-me em silêncios como sombras noturnas.
Ele olhava-me cúmplice, prisioneiro de um comportamento, ora passivo, ora reativo.
O momento era solene, arrefecido por pensamentos obscuros.
Quando cheguei a casa, fui questionado pela minha mãe:
– Tu que tens, meu filho, que vens tão triste?
Olhei para os olhos dela:
– O professor deu-me vinte reguadas, mas já não me dói nada.
– Deixa lá, vou estrelar-te um ovo acabado de sair da Pita Piloa.
E assim, entre o afago da mãe e a maravilhosa neve que ainda caía, fui brincar com um bando de canalha, na mais pura felicidade…
No dia seguinte, o professor ajudou-me de forma muito particular com o desenho de um galo, pois eu tinha pouco jeito para desenhar animais e muito menos galináceos.
O resto do ano, na Escola do Pisco, decorreu com normalidade. O jovem professor tratou-me sempre com melodiosa delicadeza, talvez porque também ele gostasse de música como eu.
E assobiava com frequência, como canção cintilante, que desperta e liberta.




