O meu avô, José Gomes de Moura, mais conhecido por Zé da Moura, músico do Regimento de Infantaria 13, integrava a distinta banda como clarinetista.
Nesse ano, os soldados, magricelas e mal calçados, partiram a pé até à Régua. A fé era imensa. O clarinete do meu avô, era a sua arma: uma arma de paz, inimiga da guerra.
Zé da Moura, era um homem pacífico, apaziguador, que via na música a estrela de uma paixão que por vezes não sabia controlar… e foi com a música que ele se despediu da sua terra.
Naquele dia, o povo em Vila Real aglomerou-se acenando com lenços brancos, gritando e chorando. A dor dessa despedida era cruel, injusta, e só foi suavizada pelas marchas bravas e heroicas da banda, cujos sons ecoavam entre casas e corações.
Muitas pessoas da cidade acompanharam os músicos e as tropas, que fizeram o primeiro descanso em Lobrigos e depois em Santa Marta de Penaguião. Aqui, foram recebidos de braços abertos, com comida, bebida farta e palavras de encorajamento. Eram as tropas que passavam, e era o povo que as saudava com fervor, acompanhando-as com os olhos enternecidos até desaparecerem na última curva das estradas poeirentas. As tropas lá iam, animadas para o cumprimento do dever, embaladas pela esperança de uma grande vitória.
Já na Régua, nesse recanto tão sonhador e belo, a população manifestou um patriotismo assinalável à passagem do primeiro batalhão. Nas ruas e marginal, o entusiasmo era vibrante, vitórias gritadas, vivas entoadas, lágrimas contidas.
Na partida do comboio, a gare estava repleta de milhares de pessoas, numa onda humana que dava vivas à Pátria, à República e às nações aliadas. Milhares de lenços brancos tremiam num comovido adeus, numa onda de esperança.
O estrépito do comboio, o resfolgar da locomotiva, tudo isso era abafado pelos clamores entusiásticos da multidão.
O comboio não partiu sem que, antes, a Banda do Regimento de Infantaria 13, tocasse uma marcha militar que galvanizou os espíritos e deu força aos que partiam e aos que ficavam.
Tancos esperava por eles, para os preparar militarmente o melhor possível… depois seguiriam até França. Na Batalha de La Lys, as tropas portuguesas foram esmagadas por uma força alemã bélica, implacável. Esfarrapados e esfomeados, poucos chegaram a Vila Real, e muitos deles haviam de morrer de tísica.
Mas, naquele dia de partida, o clarinete do meu avô tocava. A sua música era a derradeira oração de paz antes da tempestade. E, talvez, entre todas aquelas armas que seguiam para a guerra, o clarinete fosse dos poucos instrumentos que ainda acreditavam na paz e num mundo de esperança na harmonia dos sons.




