Nos préstimos fúnebres, embalados pelas bandas, nasciam elos profundos de dor que se espalhavam pelas multidões: a dor tornava-se coletiva, e os sons, lentos e pungentes percorriam o ar como um lamento, arrepiando quem os escutava.
A marcha fúnebre começava como um lamento quase impercetível. Os metais continuavam com frases longas e suspensas, depois, os saxofones engrossavam o som, dando-lhe um peso humano, quase chorado. Cada nota parecia cair como terra sobre o caixão. A percussão, limitava-se ao bater do compasso do bombo, seco e distante. Um prato, quase sussurrado, deixava no ar um eco metálico, como se o tempo se partisse por instantes. A música era para ser sentida, para unir sentimentos.
Lembro o funeral do meu pai, em 1958: era músico e a banda esteve presente.
Ainda criança eu senti a perda como um grande vazio. Mas foi a música que me revelou, de forma cruel, o sentido dessa ausência. Os sons graves e arrastados pareciam abrir no peito chagas profundas de dor. Não eram apenas sons, eram golpes contínuos que me diziam que o meu pai não voltaria.
Em 1973, morreu José Luís Raposo, músico icónico, que não resistiu às dores insuportáveis da doença. Clarinetista de fama, era reconhecido e estimado pelas bandas vizinhas.
No seu funeral, estiveram músicos de outras coletividades. A marcha fúnebre tornou-se luz, dilacerando os corações que choravam a dor estampada nos sons dolorosos.
A marcha fúnebre de Chopin, nesse dia, parecia elevar-se numa dor coletiva que unia e congregava.
Em 1978, no funeral de Álvaro Rainho, a marcha nº 3 de Chopin soou. Músicos de Sanguinhedo e Nogueira, juntaram-se à Banda de Mateus, formando um corpo sonoro denso e comovente. O cortejo avançava lentamente e a música quase se desfazia no ar, como cansada de tanta tristeza, sentindo-se a fragilidade humana, suspensa entre o silêncio e o adeus…
Mestre Ilídio, Diogo Paradela, Luísa dos Anjos – de Castelãos – e tantas outras figuras, levaram a banda no seu último caminho.
Dizia-se que assim, perfumados pela força quase divina dos sons, chegariam ao reino da salvação.
E que à sua chegada, as trombetas dos anjos, ecoariam em sua homenagem, como prolongamento celeste, das marchas que, em vida, haviam escutado.
Hoje, quando os músicos partem, já não levam consigo as marchas fúnebres a embalá-los para a última morada. O mundo mudou.
É um mundo que nos encadeia com as suas luzes em nome de uma ordem estabelecida que nos afasta da clareza e da verdade.
E, no entanto, uma marcha fúnebre, foi sempre mais do que um ritual. Era um gesto profundo de humanidade.
No tempo, havia gratidão, memória e respeito. Havia a certeza de que a música não morre com quem parte… apenas muda de silêncio.




