Quarta-feira, 15 de Abril de 2026
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Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Filarmónicas faziam o povo dançar

Nesse ano longínquo, a filarmónica de Leomil não compareceu para medir forças com a de Sernancelhe. No entanto, a de Mateus ocupou o seu lugar, levando consigo a promessa de um duelo musical memorável.

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Entre os seus músicos, destacava-se um clarinetista virtuoso, cujas semicolcheias vibrantes encantavam uns e enfureciam outros, num desafio sonoro que incendiava os ânimos da multidão.

A romaria era das mais antigas de Portugal, realizada na Freguesia de Quintela da Lapa. Como sempre, a malta de S. Barnabé fazia-se notar, descendo a rua com feroz rompante, armada de varapaus e fazendo um chinfrim danado. O arraial, esse, era de estalo. Pelas duas da manhã, entre fogo preso e foguetes que rebentavam em jardins celestes, a festa atingia o auge, com a multidão entregue a uma dança em pura euforia.

Nos coretos improvisados de ripas, as filarmónicas de Sernancelhe e Mateus entraram numa disputa acesa. Cada uma tentava sobrepor-se à outra, respondendo com rapsódias avassaladoras. Os trombones estrondeavam em desafios provocatórios, os cornetins rasgavam os ares com trinados luminosos, e os clarinetes teciam melodias que se insinuavam pela noite dentro.

Os mestres, no centro da contenda, comandavam as suas tropas musicais com gestos enérgicos, elevando os braços em desespero, num bailado de batutas e paixão.

Foi então que um dos maestros, homem de sensibilidade rara, decidiu mudar de tática. Em vez de se perder na frenética batalha, fez sinal aos seus músicos para iniciarem uma zarzuela. Começou timidamente, quase envergonhado, mas logo a música se expandiu num crescendo arrebatador, como um ribeiro correndo desaustinado pelas encostas da montanha. O povo, rendido ao encantamento, abrandou os passos da folia. Os casais mais jovens aproveitaram o momento para se enlaçarem e trocarem beijos, deixando-se levar pelas melodias envolventes. A Mariana, mulher de reputação duvidosa, também encontrou parceiro para a dança. Dançou sem pudor, entregando-se à música de forma quase escandalosa. Mas nem isso distraía os mestres das bandas, que lutavam até ao fim para conquistar o coração da festa.

Por fim, já com os maestros banhados em suor, as filarmónicas uniram-se numa marcha de despedida. A multidão seguiu-as, batendo palmas e entoando os refrões da noite. Os sons dos metais e madeiras ecoavam no ar, prolongando a festa para lá do que os corpos aguentavam.

A Mariana, exausta, caiu por fim no chão, entre risos e esgares. Ao seu lado, o jerico de um cigano, indiferente à música e às paixões humanas, mastigava qualquer coisa, abrindo e fechando as dentuças num tilintar de matracas. A noite fechava-se sobre o recinto, mas os sons daquela “batalha” musical ficariam a ressoar por muito tempo na memória do povo.

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