À entrada da casa do mestre de clarinete eu esperava por José Luís Raposo para me dar mais uma lição… depois de muito esperar, eu vejo ao fundo, junto da casa do meu tio Manuel Marinheiro, um homem com um sacho ao ombro e couves para o Natal. Esse sacho não era apenas um instrumento agrícola – era um sinal de humildade, de trabalho árduo, de uma ligação profunda ao chão que sustenta a vida.
Muitos músicos de bandas filarmónicas, não viviam exclusivamente da música. Eram agricultores, operários, artesão e, ao mesmo tempo, guardiões de um património imaterial riquíssimo.
Já bem perto de mim, vislumbro a figura tão aguardada… era, o meu mestre. Era ele que me olhava com uma amizade fraterna, um meio sorriso e um carinho silencioso.
As mãos, levemente trémulas de cansaço, denunciavam um dia longo. O olhar, porém, procurava-me…
O seu rosto era o de um homem cansado, sim…, mas feliz. Feliz por chegar a casa. Feliz, também por me ver ali à espera de uma lição de música.
José Luís Raposo, já mesmo à minha frente e todo encharcado, diz-me, perfumado com um ar de brandura:
– Tu não desistes de aprender música…
A resposta saiu pronta, sem hesitação:
– Pois… eu quero aprender para tocar na banda…
A forma determinada com que o disse levou-o a um instante de pura felicidade. E, quase de imediato, convidou-me a entrar.
Dentro de casa, na sala, brilhavam papéis de música – partituras abertas como livros de um mundo maravilhoso, onde os sons pontificam e harmonizam a própria natureza.
Os dois, dentro daquele pequeno espaço, sentíamos a música como uma aprendizagem de sonho e fantasia, como guardiães de um tesouro partilhado…
Os clarinetes eram velhos a pedir reparação; elásticos escondiam molas partidas numa engenhosa resistência ao tempo.
As palhetas, coitadas… vibravam como podiam, frágeis, mas fiéis. E ainda assim, havia algo mais forte do que tudo isso: o meu desejo ardente de aprender. Esse desejo movia montanhas.
Lá fora, a noite continuava cerrada, e a chuva não dava tréguas. Mas, dentro daquela pequena sala acendia-se uma luz que nem o tempo haveria de apagar.
Saí, com a roupa molhada, mas, aquecido por um coração que já celebrava a vitória da lição aprendida…
Em breve, entraria na Banda de Mateus, embarcando na literatura dos sons que haveriam de moldar o meu destino. E assim, começou um caminho que se tornou vida: um acumular de energia; uma espécie de bateria existencial, capaz de inflamar o meu mundo irrequieto, mas, sempre apaixonado.





