Consta-se que uma imagem da Virgem apareceu sobre uma fonte, em Alcântara. As pessoas que iam ali beber água começaram a relatar curas milagrosas, rapidamente conhecidas em toda a região.
Os condes decidiram levar a imagem para dentro de casa, mas esta desapareceu, sendo encontrada sobre um poço. Uma menina que ali se dirigiu para beber água aproximou-se e, segundo a tradição, Nossa Senhora manifestou-se, pedindo que naquele lugar fosse erguida uma igreja, onde passaria a ser invocada Nossa Senhora dos Prazeres. O testemunho da menina foi acolhido com fé, e a igreja construída tornou-se lugar de peregrinação e de inúmeras graças atribuídas à Virgem. Esta santa é também conhecida como Nossa Senhora das Sete Alegrias.
O culto do povo de Mateus a esta santa milagreira perde-se no tempo. Ninguém sabe ao certo quando começou esta ligação profunda que marcou a religiosidade da terra, naturalmente inclinada para os mistérios da fé cristã.
Também o gosto pelas artes, e naturalmente pela música, moldou vidas, preencheu emoções, e desencadeou sonhos, paixões e fantasias.
Através da bruma da memória, surgem as festas das vindimas e os bailes da Senhora dos Prazeres, que traziam rapazes da cidade rendidos à beleza das meninas de Mateus. Na dança, os pares enovelavam-se em descantes, ora vivos e disputados, ora suaves, embalados pelo encanto do momento.
A festa era também uma montra de elegância. Alfaiates e sapateiros trabalhavam sem descanso. Apesar de alguns calotes, o essencial era dar nas vistas, fazer boa figura e participar no ambiente festivo que marcava a vida da comunidade.
Mateus sempre soube honrar esta festa. As comissões organizadoras, conscientes das exigências e dos sacrifícios que implica levá-los a cabo, empenha-se com dignidade e brilho.
As procissões continuam enraizadas na fé do povo – são a alma viva da tradição e o sumo da identidade de uma comunidade. Em tempos, realizavam-se bailes ao som das bandas filarmónicas, e as merendas nos Fundegos eram expressão de um convívio forte e salutar.
Em cada ano há uma surpresa maravilhosa que Mateus oferece à sua festa.
A missa cantada e a solenidade da procissão, acompanhada pela banda da terra, são prova insofismável da elevação espiritual do povo. O tapete, ornado das mais belas flores, parte do Palácio de Mateus e sobe até à Casa de Urros. O percurso torna-se, assim, inebriante e perfumado, exalando subtis sensações de prazer.
A estátua de Nossa Senhora dos Prazeres, no largo principal, veio reforçar a devoção do povo à santa. Simples e bela, parece aproximar-se do olhar dos fiéis. Há nela uma espécie de atração espiritual, uma cumplicidade indescritível.






