Dos Fundegos vinham os primeiros raios, anunciando uma tragédia para a agricultura.
Os mais velhos vaticinavam que chegaria uma tempestade capaz de destruir as culturas já feitas. A sabedoria popular, guiada pelo desenho e pelas cores das nuvens, anunciava uma tarde arrasadora. Assim dizia uma velha sentada num banco de pedra, os óculos caídos sobre o nariz. Afagava de vez em quando um bichaninho peludo e ranhoso. Ao passar por ali uma mulher, sentenciou:
– Ó Olímpia, vem aí uma trovoada que vai pôr tudo de pantanas. Vamos ensaiar a prece a Santa Bárbara Bendita?
Ti Olímpia respondeu-lhe que a aldeia já estava habituada às trovoadas de maio e junho. Entretanto, um homem de sacho ao ombro, bigode revirado, seguia para a Granja, cantarolando uma moda brejeira, como quem desdenha o aviso das velhas.
Mas a chuva, os relâmpagos e os trovões não tardaram. Em pouco tempo, a ribeira mal continha a cheia que descia pelas vertentes dos montes. E a velha azenha, à sua margem, tornou-se testemunha de uma tragédia que se abatia sobre Mateus.
Os relâmpagos rasgaram a negrura das nuvens: tudo parecia um inferno. A natureza em estado de guerra. As gotas caíam grossas, num ruído assustador, e os trovões rebentavam com tal violência que os mais medricas se benziam à pressa.
Cheirava a terra quente e molhada num odor intenso que subia do chão.
Estavam quarenta graus.
O ar era sufocante, quase irrespirável.
Um trovão, mais violento, fez correr a ti Carolina até casa da minha mãe. Pedia abrigo, pois sabia que ali ninguém temia as trovoadas. O que caía do céu era já uma tromba de água. As nuvens negras abafavam toda a aldeia.
Da Rua da Flores desciam cordas de água desenfreadas, arrastando tudo à sua passagem. A estrada nacional oferecia um quadro sinistro: lama, pedras e entulho.
Os cavalos dos ciganos, fustigados pelos mosquitos, sacudiam-se inquietos. O patriarca fazia estalar o chicote, enquanto os animais patinhavam na lama. Uma cigana grávida de 16 anos, abanou a cabeça em reprovação, recebendo também ela um açoite.
Os cachões de água, furiosos, galgaram a estrada junto à Casa da Dona Maria e invadiram a nitreira do conde, onde estavam vários porcos bem tratados.
Encurralados, sem possibilidade de fuga, os animais grunhiram, mas ninguém os ouviu. A mortandade, porém, não passou despercebida aos ciganos.
Com autorização do administrador do conde- César Augusto Monteiro- levaram os animais para as tendas onde viviam.
Pelas barrigas inchadas dos ciganinhos, dos cães e até dos cavalos, percebeu-se que o festim fora abundante.
Depois da trovoada devastadora, Mateus reergueu-se.
E a vida não tardou a recomeçar.




