Por motivos profissionais, segui viagem no meu inseparável Mini, que tantas vezes me acompanhava por estradas longínquas.
Para surpresa dos músicos e dos habitantes da aldeia, a festa decorreu debaixo de chuva persistente e, sobretudo, de um nevoeiro tão cerrado que parecia querer engolir montes, caminhos e pessoas.
Castelãos sempre me ficou na memória como uma terra de crenças, de caminhos e encruzilhadas, de fugas e esconderijos. Mas, acima de tudo, uma aldeia onde a música de bandas encontra sempre ouvidos atentos e corações agradecidos.
O arraial terminou por volta das três horas da manhã. Como sempre, os músicos foram bem tratados e, no final, alguns levaram farnel para a viagem e amizades profundas e duradouras…
Durante todo o dia, eu vivera preocupado com a longa viagem que ainda teria de fazer até Lisboa, onde me aguardava, às 10 horas da manhã, uma reunião no Ministério da Educação.
Lavei o rosto e os pés, refresquei o corpo, entrei no Mini e pus-me a caminho. Antes, porém, olhei a imagem de Cristo pregado na cruz e que estava enrolada com um cordel ao espelho retrovisor…
Logo à saída de Castelãos, o nevoeiro voltava a ameaçar. Conduzia com todas as cautelas. Já perto de Mirandela, vencido pelo cansaço e ameaçado de morte pelo sono, cometi uma imprudência: enganei-me e abandonei a Estrada Nacional 15.
Continuei sempre em frente, convencido de que, mais adiante, voltaria a encontrar a almejada estrada…
Não aconteceu.
O nevoeiro era tão cerrado que mal deixava adivinhar o caminho.
A certa altura, comecei a ouvir cães a ladrar e burros a zurrar. Não poderiam estar muito longe…
Parei o Mini, saí do carro e caminhei na direção daqueles sons.
Pouco depois distingui uma luzinha e uma espécie de barraco. Gritei com toda a força:
– Está alguém?
Um homem apareceu. Adivinhando o meu desespero, prontificou-se de imediato a ajudar-me.
Seguiu à minha frente num grande jipe. Equipado com luzes de nevoeiro, conduziu-me até à Estrada Nacional 15, depois de percorrermos cerca de 5 quilómetros por caminhos que eu, sozinho, jamais teria conseguido vencer.
Entretanto, o sol rompeu o nevoeiro.
Pude, finalmente, olhar em frente e ver o céu a vestir-se de um azul profundo. Tudo era agora deslumbramento.
O sol nascia para toda a gente. Olhei para a imagem de Cristo e falei-Lhe como se também Ele tivesse guiado os meus passos e contribuído para um desfecho tão feliz…
E o meu pequeno Mini parecia ganhar nova força e coragem para prosseguir a viagem até Lisboa.




