Sábado, 11 de Julho de 2026

História de superação de Nelson Silva chega ao maior palco nacional

Quando Nelson Silva alinhar na grelha do Circuito Internacional de Vila Real, não estará apenas a concretizar mais uma participação desportiva.

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Estará a acrescentar um novo capítulo a uma história de resiliência que começou há quase duas décadas, quando um grave acidente de mota lhe mudou a vida para sempre.

Em 2007, então com cerca de 20 anos, sofreu um acidente que resultou na amputação da perna direita. Seguiram-se anos de recuperação e reaprendizagem, mas, em vez de abandonar os seus sonhos, decidiu procurar novos desafios.

“Desde aí estive quatro anos em casa, parado, sem poder fazer nada, muita fisioterapia. Tive que aprender a andar. Depois foi sempre à procura de desafios, sempre os mais difíceis, para também me sentir melhor e ultrapassar essa fase”, recorda à VTMo piloto de Sintra.

A paixão pelo desporto motorizado nunca desapareceu. Depois de várias experiências no karting, através da Alba karting, equipa que iniciou em “tom de brincadeira” com a família, Nelson Silva tornou-se o primeiro piloto amputado a disputar um campeonato nacional de karting em Portugal, alcançando resultados que provaram que a amputação de um membro inferior não é um obstáculo à competição.

Hoje, além de piloto, é também responsável pela estrutura que acompanha cinco jovens pilotos no karting. Entre os que passaram pelas mãos de Nelson Silva encontra-se um jovem talento que já realizou testes ligados à Ferrari e participa em competições internacionais.

“Decidi fazer aquilo que fizeram por mim, ajudar. Criámos uma espécie de equipa lowcost para trazer mais pessoas para este mundo e felizmente temos conseguido”, explica.

Novo desafio

Agora, o desafio chama-se automóvel. E a estreia em Vila Real está prevista que aconteça ao volante de um Citroën C1, integrado na categoria City do Campeonato de Portugal de Velocidade Legends.

A ideia não surgiu de um dia para o outro. O carro está na sua posse há mais de um ano, mas faltava a oportunidade certa. “O carro já está comigo há um ano e tal, cerca de dois anos. Nunca houve oportunidade nem tempo. Depois surgiu o desafio do Fábio e do Nuno (seus amigos), do Carlos Barbosa, e como Vila Real é uma prova com muita visibilidade, resolvemos arriscar”, conta.

“As pessoas ficam sempre incrédulas. Perguntam como é que consigo fazer”

A preparação da pista onde nunca competiu tem passado pelo simulador, onde já acumulou muitas voltas virtuais ao traçado vila-realense. “Tenho feito alguma coisa no simulador. Não aquilo que desejava, mas já quase conheço a pista de olhos fechados”, diz entre sorrisos.

Nélson Silva DR (5)Quanto ao desafio de enfrentar um pelotão numeroso num dos circuitos citadinos mais exigentes, não demonstra qualquer preocupação. “Isso não faz diferença. O meu objetivo é pô-los todos atrás de mim. Por isso, à frente não tenho ninguém e está tudo bem”, afirma, revelando o sentido de humor e a confiança que o caracterizam.

Revela que os seus amigos fizeram-nos repensar numa ideia que estava já presente no seu íntimo, competir nas ruas de Vila Real. “Tive a chama sempre comigo, embora pequenina e depois com eles a desafiarem-me, cresceu. Pensei, se é para fazer, é para fazer. Senti que era agora que tinha de o fazer e ir à procura das ajudas necessárias”.

Quando falamos, Nelson Silva assumiu que grande parte das ajudas que procurou foram bem acolhidas, mas com terreno ainda para palmilhar.

Pedra no caminho

A o longo dos anos, habituou-se também ao espanto de quem o vê competir sem adaptações visíveis. “As pessoas ficam sempre incrédulas. Perguntam como é que consigo fazer. Eu próprio também não sei explicar. Sai naturalmente. Se pensar demasiado no que estou a fazer, corre tudo mal”, confessa.

Para Nelson Silva, porém, o mais importante continua a ser a mensagem que procura transmitir, uma vez que “quando temos alguma pedra no caminho é só desviar para o lado e passar. Se eu consigo, porque é que os outros não vão conseguir?”.

Em Vila Real, o objetivo é simples: competir, divertir-se e provar, uma vez mais, que as limitações físicas não definem os limites de uma pessoa. A sua presença no circuito será mais do que uma participação desportiva. Será um exemplo de perseverança, coragem e paixão pelo automobilismo.

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