Estará a acrescentar um novo capítulo a uma história de resiliência que começou há quase duas décadas, quando um grave acidente de mota lhe mudou a vida para sempre.
Em 2007, então com cerca de 20 anos, sofreu um acidente que resultou na amputação da perna direita. Seguiram-se anos de recuperação e reaprendizagem, mas, em vez de abandonar os seus sonhos, decidiu procurar novos desafios.
“Desde aí estive quatro anos em casa, parado, sem poder fazer nada, muita fisioterapia. Tive que aprender a andar. Depois foi sempre à procura de desafios, sempre os mais difíceis, para também me sentir melhor e ultrapassar essa fase”, recorda à VTMo piloto de Sintra.
A paixão pelo desporto motorizado nunca desapareceu. Depois de várias experiências no karting, através da Alba karting, equipa que iniciou em “tom de brincadeira” com a família, Nelson Silva tornou-se o primeiro piloto amputado a disputar um campeonato nacional de karting em Portugal, alcançando resultados que provaram que a amputação de um membro inferior não é um obstáculo à competição.
Hoje, além de piloto, é também responsável pela estrutura que acompanha cinco jovens pilotos no karting. Entre os que passaram pelas mãos de Nelson Silva encontra-se um jovem talento que já realizou testes ligados à Ferrari e participa em competições internacionais.
“Decidi fazer aquilo que fizeram por mim, ajudar. Criámos uma espécie de equipa lowcost para trazer mais pessoas para este mundo e felizmente temos conseguido”, explica.
Novo desafio
Agora, o desafio chama-se automóvel. E a estreia em Vila Real está prevista que aconteça ao volante de um Citroën C1, integrado na categoria City do Campeonato de Portugal de Velocidade Legends.
A ideia não surgiu de um dia para o outro. O carro está na sua posse há mais de um ano, mas faltava a oportunidade certa. “O carro já está comigo há um ano e tal, cerca de dois anos. Nunca houve oportunidade nem tempo. Depois surgiu o desafio do Fábio e do Nuno (seus amigos), do Carlos Barbosa, e como Vila Real é uma prova com muita visibilidade, resolvemos arriscar”, conta.
“As pessoas ficam sempre incrédulas. Perguntam como é que consigo fazer”
A preparação da pista onde nunca competiu tem passado pelo simulador, onde já acumulou muitas voltas virtuais ao traçado vila-realense. “Tenho feito alguma coisa no simulador. Não aquilo que desejava, mas já quase conheço a pista de olhos fechados”, diz entre sorrisos.
Quanto ao desafio de enfrentar um pelotão numeroso num dos circuitos citadinos mais exigentes, não demonstra qualquer preocupação. “Isso não faz diferença. O meu objetivo é pô-los todos atrás de mim. Por isso, à frente não tenho ninguém e está tudo bem”, afirma, revelando o sentido de humor e a confiança que o caracterizam.
Revela que os seus amigos fizeram-nos repensar numa ideia que estava já presente no seu íntimo, competir nas ruas de Vila Real. “Tive a chama sempre comigo, embora pequenina e depois com eles a desafiarem-me, cresceu. Pensei, se é para fazer, é para fazer. Senti que era agora que tinha de o fazer e ir à procura das ajudas necessárias”.
Quando falamos, Nelson Silva assumiu que grande parte das ajudas que procurou foram bem acolhidas, mas com terreno ainda para palmilhar.
Pedra no caminho
A o longo dos anos, habituou-se também ao espanto de quem o vê competir sem adaptações visíveis. “As pessoas ficam sempre incrédulas. Perguntam como é que consigo fazer. Eu próprio também não sei explicar. Sai naturalmente. Se pensar demasiado no que estou a fazer, corre tudo mal”, confessa.
Para Nelson Silva, porém, o mais importante continua a ser a mensagem que procura transmitir, uma vez que “quando temos alguma pedra no caminho é só desviar para o lado e passar. Se eu consigo, porque é que os outros não vão conseguir?”.
Em Vila Real, o objetivo é simples: competir, divertir-se e provar, uma vez mais, que as limitações físicas não definem os limites de uma pessoa. A sua presença no circuito será mais do que uma participação desportiva. Será um exemplo de perseverança, coragem e paixão pelo automobilismo.




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