Quarta-feira, 15 de Abril de 2026
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Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A “Suite de Valsas” embalou-os para a vida e para a morte

A Banda de Mateus tocava no largo da aldeia. Vinte músicos, mal fardados, sopravam com toda a força.

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Em frente à tasca, os copos bailavam ao ritmo da sede de cada um. O vinho espumava nas bocas, solto, atrevido.

– Que jovem tão bela! Vejam, que cara, e que olhos.

– Tem mas é juízo, João, que a miúda tem apenas dezasseis aninhos, é filha do ti Jacinto das cabras, homem que facilmente arrota quando está zangado.

Na verdade, Joãozinho sabia que um rapaz fino, rico e filho de médico, não podia casar com alguém que guardava rebanhos. Bolas! Mas a miúda era gira.

– Mas que bela cinturinha – cogitava o rapaz imaginando-se entrar no arraial com a Aninhas à garupa do seu cavalo…

A Banda de Mateus atacava agora uma rapsódia em andamento rápido. Mestre Ilídio não dava descanso aos braços. O músico do cornetim puxava por ele.

Joãozinho encheu-se de coragem e foi convidar a Aninhas para dançar. Ela hesitou um instante, mas, a medo, deu-lhe as mãos. Ele apertou-as com delicadeza, e sentiu-se o rapaz mais feliz da festa.

Junto à taberna, o vinho fermentava e o baile prometia ser noite para não esquecer.

No meio da dança, surgiu um velho andrajoso, agarrado à sua bengala. Barba comprida, cabelo sabujo. Fora corrido da taberna como um cão rafeiro. Joãozinho, era um rapaz de boa formação cívica. O tio, fora padre liberal, solidário, de mãos largas, conhecera Afonso Costa, acérrimo defensor do Partido Democrático – aproximou-se e perguntou-lhe:

– Há quanto tempo não come?

– E o pobre respondeu:

– Há vários dias.

O velho queria dançar. Estranhas sensações da juventude cortavam-lhe a carne dorida das saudades. Ouvir a Banda de Mateus e bailar, era remédio para a cura das suas tristezas, antídoto para esquecer a mulher que morrera de tísica.

Era noite de agosto. Luar imenso. E o velho de tanto dançar com a sua bengala, morreu agarrado a ela. Morreu feliz, galvanizado pelas melodias que o arrastavam para tempos de felicidade. A banda parou por respeito, e aquela luz de luar envolvia-lhe a face como sopro de vida, luz de liberdade. Bêbados, bailadores, coscuvilheiras, ciganos, doceiras, músicos e o Mestre Ilídio ficaram profundamente tristes.

Joãozinho e Aninhas haviam de casar mais tarde. Um casal que soube respeitar uma sociedade em que a dignidade humana é valor maior. No quarto onde ambos morreram, há um retrato comovedor: os dois olham-se um para o outro como que hipnotizados.

Há também outro retrato – o de cornetim – a lembrar que foi por aquele toque de um músico de Mateus, que sentiram a primeira atração irresistível. Aquela “Suite de Valsas embalou-os para a vida e para a morte.

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