Contudo, para além do rigor dos bisturis e da complexidade dos blocos operatórios, a transplantação vive de um recurso que não se fabrica em laboratório: a generosidade humana informada. Em Portugal, ocupamos um honroso quarto lugar mundial em dadores falecidos (dados de 2022), mas este sucesso não é estático; depende criticamente do que cada cidadão sabe — ou julga saber — sobre o processo.
Muitos portugueses desconhecem que vivemos sob um regime de consentimento presumido. Na prática, todos somos potenciais dadores pós-morte, a menos que manifestemos oposição através do Registo Nacional de Não Dadores (RENNA). É um sistema de solidariedade automática, mas que exige consciência. Se a vontade de não doar é um direito garantido via centros de saúde, o “sim” à doação é um ato de cidadania que merece ser discutido à mesa do jantar.
Existem dois caminhos para este legado. O dador vivo, focado maioritariamente em rins ou parte do fígado, ocorre sob critérios de segurança apertados e apenas quando não há alternativas. O dador falecido, o mais comum, exige a confirmação rigorosa de morte cerebral ou, mais recentemente, de paragem cardiocirculatória.
Persistem, porém, mitos que o conhecimento científico precisa de desmistificar. Nem todos podem ser dadores: doenças infeciosas ativas ou patologias graves são critérios de exclusão. Além disso, há um receio infundado sobre a integridade do corpo: a colheita é um ato cirúrgico respeitoso que não causa qualquer deformação externa. O que resta é a possibilidade de salvar vidas através de rins (que representaram 52% das intervenções em 2022), fígado, coração, pulmões ou tecidos como as córneas.
Como enfermeiros, a nossa investigação na região Norte revelou um dado crucial: o motivo mais frequente para a não concretização de uma doação é o desconhecimento da família sobre o desejo do falecido. No momento do luto, a dúvida gera o recuo.
O papel do profissional de saúde vai muito além do cuidado técnico; passa por ser um educador. Mas a responsabilidade é partilhada. A ciência fornece o método e os indicadores de sucesso, mas o motor do sistema é a consciência social.
Ser dador é acreditar que a vida pode ser um legado que ultrapassa a nossa própria existência. Informe-se, decida e, acima de tudo, partilhe a sua decisão. Diga o seu “sim” à sua família em vida, para que outros possam ter um recomeço amanhã.







