Bem percebo por que é que os jornais recorrem a títulos bombásticos e espampanantes, cujas notícias depois nem sempre o são, ou as televisões recorrem a alertas ou reclames luminosos a dizer última hora, ou até a publicidade recorre a cenas provocadoras e patéticas. Tudo se faz para se conquistar a atenção das pessoas a todo o custo, porque vivemos tempos de atenção dispersa e fragmentada. Estamos atentos a tudo e não estamos atentos a nada, ou atentos a muitas coisas ao mesmo tempo, sem prestarmos atenção a nada. Escuto a miúde, por exemplo, professores e até catequistas a lamentar a desatenção patológica das gerações atuais, que estão permanentemente distraídas, não retêm conhecimentos, têm dificuldade em refletir, em fazer raciocínios e desenvolver pensamentos. Quem não tem atenção, também não pensa bem, e não aprende bem. Não me é difícil perceber, quando estou à frente de uma assembleia, como facilmente as pessoas se distraem e têm dificuldade em manter a atenção e o foco.
Num dos capítulos do seu livro, “A Sociedade do Cansaço”, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han discorre sobre o tema. E não tem a mínima dúvida em afirmar que estamos a viver um retrocesso civilizacional, uma mudança perniciosa na estrutura e na economia da nossa atenção. Uma atenção perdida e dispersa em muitas tarefas e estímulos é uma destruição da atenção, com graves consequências para a pessoa humana e a sua atividade. A nossa atenção está a tornar-se como a do animal selvagem, que ao mesmo tempo que executa uma tarefa, tem de estar atento a tudo à sua volta para sobreviver. A humanidade evoluiu porque é detentora de uma atenção contemplativa, profunda, reflexiva. Cria-se cultura quando há espaço para uma atenção profunda. Tarefa quase impossível quando a nossa atenção (agora hiperatenção) anda dispersa e muda constantemente de foco entre diversas informações, atividades e processos. Uma sociedade hiperatenta e hiperativa é uma sociedade que não tem atenção profunda. Nas palavras do pintor Paul Cézanne, somos uma sociedade que “não vê o perfume das coisas”, e Nietzsche não tem dúvidas em afirmar que a vida humana acaba numa hiperatividade mortal quando fica destituída do seu elemento contemplativo, tornando-se o caminho aberto e limpo para a barbárie.



