Sexta-feira, 17 de Abril de 2026
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Fazemos Bem em ler José Saramago

Tenho acompanhado o debate que se levantou nos últimos dias devido a uma proposta do Ministério da Educação, que está em consulta pública até ao final deste mês, propondo que dois livros de José Saramago deixem de ser obrigatórios no 12º ano.

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Em alternativa, e em nome de uma maior flexibilidade na escolha de obras literárias, surge uma obra do escritor Mário de Carvalho, “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”, livro que aborda a decadência dos tempos e da sociedade. Caso a proposta seja aceite, os professores passam a poder optar entre uma obra de José Saramago e uma de Mário de Carvalho.

Alguns apontam razões políticas e religiosas para esta proposta do Ministério da Educação, e outros não deixam de registar mais uma cena lamentável de censura e perseguição a um escritor que teve um espírito crítico aguçado para com certas entidades e instituições. Se o governo se serve destas motivações, acho que presta um mau serviço ao ensino português e à cultura. Mas também não é uma tragédia o facto de a obra de um grande escritor deixar de ser obrigatória, visto que a alternativa também é de grande valor. Mas, honestamente, se temos um nobel da literatura, mau será que os alunos que passem pelo ensino português não conheçam a sua obra ou um dos seus melhores livros.

Li grande parte da obra de José Saramago nos tempos de estudante, motivado sobretudo pelo prémio nobel que recebeu. É inquestionável que alguns livros são obras primas literárias. Cativa, sobretudo, porque é um escritor incómodo e complexo, questionador, profundamente crítico, pelos temas que explora, pelas inolvidáveis personagens que constrói, pelos universos narrativos em que se aventura e indagações que trilha. Não cola o argumento de que é um escritor complicado e difícil de ler. Pelo contrário, isto é um motivo para o ler, porque as leituras difíceis e complexas fazem falta ao ensino. Eu li “A Sibila” de Agustina Bessa-Luís no secundário, um livro difícil, e não ficou nenhum trauma, e hoje até considero que foi desafiante e enriquecedor.

Não podemos limitar o ensino só a conteúdos suaves, fáceis, acessíveis e divertidos, como parece que é moda hoje em dia. Num tempo em que se foge ao esforço e se está a desaprender a pensar, o que é preocupante, em que o pensamento crítico está a ficar tacanho e secundarizado, ler a obra de José Saramago pode ser extremamente enriquecedor para os alunos e para o crescimento intelectual e literário de muitos discentes portugueses.

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