Fazemos Bem em ler José Saramago

Tenho acompanhado o debate que se levantou nos últimos dias devido a uma proposta do Ministério da Educação, que está em consulta pública até ao final deste mês, propondo que dois livros de José Saramago deixem de ser obrigatórios no 12º ano.

Em alternativa, e em nome de uma maior flexibilidade na escolha de obras literárias, surge uma obra do escritor Mário de Carvalho, “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”, livro que aborda a decadência dos tempos e da sociedade. Caso a proposta seja aceite, os professores passam a poder optar entre uma obra de José Saramago e uma de Mário de Carvalho.

Alguns apontam razões políticas e religiosas para esta proposta do Ministério da Educação, e outros não deixam de registar mais uma cena lamentável de censura e perseguição a um escritor que teve um espírito crítico aguçado para com certas entidades e instituições. Se o governo se serve destas motivações, acho que presta um mau serviço ao ensino português e à cultura. Mas também não é uma tragédia o facto de a obra de um grande escritor deixar de ser obrigatória, visto que a alternativa também é de grande valor. Mas, honestamente, se temos um nobel da literatura, mau será que os alunos que passem pelo ensino português não conheçam a sua obra ou um dos seus melhores livros.

Li grande parte da obra de José Saramago nos tempos de estudante, motivado sobretudo pelo prémio nobel que recebeu. É inquestionável que alguns livros são obras primas literárias. Cativa, sobretudo, porque é um escritor incómodo e complexo, questionador, profundamente crítico, pelos temas que explora, pelas inolvidáveis personagens que constrói, pelos universos narrativos em que se aventura e indagações que trilha. Não cola o argumento de que é um escritor complicado e difícil de ler. Pelo contrário, isto é um motivo para o ler, porque as leituras difíceis e complexas fazem falta ao ensino. Eu li “A Sibila” de Agustina Bessa-Luís no secundário, um livro difícil, e não ficou nenhum trauma, e hoje até considero que foi desafiante e enriquecedor.

Não podemos limitar o ensino só a conteúdos suaves, fáceis, acessíveis e divertidos, como parece que é moda hoje em dia. Num tempo em que se foge ao esforço e se está a desaprender a pensar, o que é preocupante, em que o pensamento crítico está a ficar tacanho e secundarizado, ler a obra de José Saramago pode ser extremamente enriquecedor para os alunos e para o crescimento intelectual e literário de muitos discentes portugueses.

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