Quinta-feira, 28 de Maio de 2026
Eduardo Varandas
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Memórias de Guiães: a tia Cadeta e a nobre missão de trazer vidas ao mundo

Há figuras que moldam a identidade e a história das nossas aldeias, deixando um legado intangível de amor e dedicação ao próximo.

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Em Guiães, uma dessas mulheres inesquecíveis foi a “Tia Cadeta”. Admirada e acarinhada por toda a comunidade, desempenhou, ao longo da vida, uma função social crucial com invulgar sabedoria, dedicação e eficiência.

Numa época em que as maternidades eram escassas no Portugal rural e subdesenvolvido do século passado, era ela a parteira de serviço. Estava sempre disponível quando chegava a hora de as parturientes trazerem os seus filhos ao mundo. Possuía um dom natural com que a natureza a agraciou, colocando-o generosamente ao serviço da comunidade, com amabilidade, carinho e total desprendimento.

De aspeto franzino e olhar perspicaz, a tia Cadeta morava no Cabo da Rua, numa pequena casa tipicamente transmontana de paredes de xisto à vista, composta por dois pisos. No rés-do-chão situava-se a tradicional loja, onde guardava a lenha, os animais e alguns utensílios agrícolas; no primeiro andar ficavam a cozinha, que servia também de sala comum, e os dois quartos. Quem com ela privou, recorda-a sentada na soleira da porta, no cimo da escadaria de pedra, nos finais de tarde soalheiros, contemplando serenamente o ambiente que a rodeava, com o seu inseparável lenço preto na cabeça.

Exerceu a sua nobre missão sem nunca olhar à condição social das suas conterrâneas. Sempre que era chamada a prestar auxílio, jamais se recusava, fosse de dia ou de noite, fizesse sol ou chuva.

Para além do seu papel no nascimento de tantas vidas, tinha a particularidade de ser uma exímia contadora de histórias. Era um regalo ouvi-la narrar episódios e peripécias da sua longa experiência, muitas vezes com uma pitada de malandrice à mistura, que fazia as delícias de todos. Nos últimos tempos, já com algumas dificuldades de mobilidade, contava com o apoio da filha Maria, que lhe sucedeu e herdou o seu vasto legado de sabedoria.

O autor destas linhas – juntamente com a sua irmã gémea – teve o privilégio de ser uma das muitas crianças de Guiães que veio ao mundo com o precioso e sábio auxílio da tia Cadeta.

Presto aqui esta justa homenagem póstuma a uma mulher que pelo altruísmo, voluntarismo e dedicação ao próximo, merece plenamente a admiração e o respeito de todos nós.

Que Deus a tenha na Sua imensa Glória.

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