Éramos amigos de longa data. Uma amizade forjada nos bancos da antiga Escola Industrial e Comercial da nossa Bila, que se foi consolidando ao longo dos anos de uma convivência sã, fraterna e leal.
No início da década de 60, o Adelino morava em Mateus e, ao passar pelo Colégio da Boavista, que eu frequentava como pensionista, seguíamos juntos para as aulas, atravessando a ponte metálica sempre em conversa animada. Era um apaixonado pelo hóquei em patins, comentando com entusiasmo contagiante o Campeonato do Mundo que se realizava em junho, vibrando com os êxitos da seleção nacional, então praticamente imbatível.
Concluídos os estudos, candidatámo-nos ao estágio profissional na Efacec, requisito indispensável para a realização do então exigido Exame de Aptidão Profissional. No início de 1968, ambos nos deslocámos para o Porto, onde permanecemos durante seis meses.
Hospedámo-nos na casa de uma senhora, viúva de um maquinista da CP, por intermédio de uns familiares do Adelino, que conhecia a proprietária da casa, partilhando o mesmo quarto, na Rua Brito Capelo, na zona da Ramada Alta.
Todos os dias viajávamos de autocarro para Leça do Balio, onde funcionava a Efacec, regressando ao final da tarde, após o trabalho. Foram meses de aprendizagem, de camaradagem e de crescimento pessoal.
Nesse ano, tivemos ainda a oportunidade de viver intensamente as festas de São João do Porto. Percorremos, noite dentro, as Fontainhas, Campanhã, a Ribeira, a Avenida dos Aliados e tantos outros locais emblemáticos da cidade, participando na alegria contagiante daquela que continua a ser uma das maiores festas populares do país.
Terminada essa etapa, regressámos às origens num lento comboio misto, de passageiros e mercadorias, que partia de Campanhã cerca das duas da madrugada e parava em todas as estações e apeadeiros, chegando à Régua já perto das seis da manhã. Era o fim de um ciclo particularmente marcante das nossas vidas.
Depois de concluído o curso, cada um seguiu o seu percurso profissional. Entretanto, chegou o serviço militar obrigatório, inevitável para os jovens daquela geração. O Adelino foi mobilizado para a Guiné e eu para Angola, circunstância que nos afastou fisicamente durante algum tempo.
Mais tarde, voltámos a reencontrar-nos e nunca deixámos que a amizade se perdesse. Mantivemos contacto sempre que possível, acompanhando os percursos um do outro. Nos últimos anos, porém, assisti com tristeza ao avanço da doença, que lentamente lhe foi roubando qualidade de vida, até ao desfecho que ninguém deseja, embora todos saibamos ser inevitável.
Guardo dele a imagem de um homem afável, íntegro, trabalhador, bom companheiro e sempre pronto para uma conversa franca e bem-disposta. Assim ficará para sempre na minha memória.
Repousa em paz, querido Adelino.
A tua amizade permanecerá para sempre na memória de quem teve o privilégio de partilhar contigo tantos momentos da vida.





