De forma paradoxal, surgem hoje reivindicações que caminham em sentidos opostos: jovens angolanos exigem indemnizações a Portugal pelos crimes cometidos no passado colonial, enquanto que jovens portugueses defendem que as antigas colónias deveriam compensar Portugal pelas infraestruturas deixadas após a independência.
Exemplo disso foi o que aconteceu há dias, quando um grupo de jovens angolanos se manifestou junto à Embaixada de Portugal em Luanda, exigindo à antiga potencia colonial uma indeminização compensatória de 1000 milhões de dólares pelos crimes cometidos durante o colonialismo. Em sentido inverso, alguns jovens portugueses adotaram a mesma postura, manifestando-se em frente à Embaixada de Angola em Lisboa, reclamando o montante de 500 mil milhões de euros pelas infraestruturas deixadas em território angolano durante a presença portuguesa.
Mais do que propostas políticas viáveis, estas posições refletem tensões identitárias, leituras simplificadas da história e a influência crescente das guerras culturais contemporâneas. É neste ambiente que o chamado wokismo ganha influência. Embora o termo seja frequentemente usado de forma vaga, ele descreve uma abordagem política e cultural que privilegia a denúncia de opressões históricas, a linguagem da dívida moral e a exigência de reparações como forma de justiça retroativa. Entre alguns jovens angolanos, essa lógica traduz-se numa leitura do colonialismo como crime absoluto, com efeitos permanentes que justificariam compensações contínuas. Entre jovens portugueses, a reação assume frequentemente um tom “anti-woke”, marcado pela rejeição da culpa histórica e pela tentativa de relativizar ou compensar as acusações com contra-argumentos igualmente simplificadores.
Quando a memória coletiva é instrumentalizada de forma moralizante — dividindo a história entre culpados absolutos e vítimas homogéneas — corre-se o risco de cristalizar ressentimentos e impedir uma compreensão mais complexa do passado. O colonialismo foi, simultaneamente, um sistema violento e desigual e um processo historicamente localizado, cujas consequências não podem ser analisadas apenas com as categorias morais do presente.
Em última análise, o desafio não está em decidir quem “deve” a quem, mas em compreender como o passado colonial continua a moldar o presente e como pode ser enfrentado com responsabilidade, diálogo e sentido histórico. Sem isso, tanto as exigências de indemnizações como as contra-exigências correm o risco de se tornarem apenas sintomas de conflitos identitários importados, mais ligados às guerras culturais globais do que às necessidades reais dos povos envolvidos.






