Clínico de profissão, formado em Medicina pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto, não nasceu na terra que adotou como sua. Ao contrário do que muitos guianenses pensam, era natural de Vila Real, tendo nascido no edifício onde hoje se encontra instalado o Museu de Arqueologia e Numismática, na antiga Rua do Caminho de Baixo (atual Rua do Rossio) — local que, em tempos, acolheu também a Escola do Magistério Primário.
Segundo consta no II Volume do Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses, coordenado pelo Dr. Barroso da Fonte, este ilustre transmontano e duriense exerceu clínica na Foz do Douro. Ali foi o verdadeiro “médico de família” de várias gerações, prolongando a sua atividade clínica até ao final da vida, aos 96 anos. Homem de vasta cultura, manifestou sempre um grande interesse pela literatura, sendo presença assídua na célebre tertúlia Tavares Martins, onde privava com grandes vultos das letras portuguesas, como Jaime Cortesão e Leonardo Coimbra.
Paralelamente, o Dr. Sebastião Feyo dividia o seu tempo com a quinta em Guiães. A propriedade conserva ainda hoje a imponência da sua casa senhorial, exibindo o brasão de armas da família na fachada principal. Virado para a Rua do Tanque encontra-se o grande armazém outrora central na atividade da quinta: era ali que se vinificava e guardava toda a colheita das suas vinhas. Embora o edifício esteja hoje infelizmente em ruínas, acima da porta principal ostenta ainda um pequeno símbolo esculpido com as iniciais do proprietário. Era na pacatez deste refúgio que passava longas temporadas, sobretudo durante o verão.
Recordo-o frequentemente nas suas passagens por Guiães. Ao final da tarde, nunca abdicava dos seus passeios rurais e da visita às propriedades que possuía noutros pontos da freguesia. Com um porte elegante e munido de um pequeno cajado, palmilhava descontraidamente as artérias da aldeia, observando com atenção cada detalhe da paisagem campestre que o rodeava.
Duas particularidades demonstram bem o seu espírito singular e empreendedor. A primeira prende-se com o facto de a sua casa ter sido a primeira da aldeia a ter água canalizada, em meados da década de 1960. Numa iniciativa inédita e arrojada para a época, canalizou a água a partir de uma nascente abundante numa das suas propriedades até à casa da quinta, numa extensão de várias centenas de metros. O feito foi celebrado com pompa e circunstância, num convívio que incluiu música e fogo de artifício.
A segunda nota de destaque remete-nos para setembro de 1980, aquando da formatura em Medicina do meu irmão. O Dr. Feyo fez questão de se deslocar à nossa casa — a poucos passos da sua — para o parabenizar pelo sucesso alcançado, revelando, com essa atitude, o seu espírito humanista e uma enorme elevação e retidão de caráter. Importa ainda realçar a sua faceta filantrópica e cultural, espelhada na doação à Junta de Freguesia de Guiães da coleção completa das obras de Eça de Queiroz.

