Seguro ilude Carneiro

Como todos sabemos, ao oitavo dia do mês de fevereiro, António José Seguro foi eleito Presidente da República, tendo obtido 66,84 % dos votos da segunda volta, provocando no seio do Partido Socialista a esperança eleitoral que se ia desvanecendo de eleição em eleição.

Não obstante, cumpre numa análise mais precisa evidenciar que o percentual de Seguro não corresponde somente à reunião dos votos de quem o queria como Presidente, mas também de quem, com sucesso, afastou André Ventura do cargo.

Recuando à primeira volta, importa igualmente salientar que o atual Presidente concorreu contra, pelo menos, três candidatos dos partidos à direita – André Ventura, Cotrim Figueiredo e Marques Mendes – que viram os respetivos votos significativamente repartidos, o que muito ajudou à vitória lograda pelo socialista.

No entanto, este resultado favorável que apela ao uso da estratégia de AJS pode revelar-se prejudicial a José Luís Carneiro e ao Partido Socialista.

Enquanto nas eleições Presidenciais a abstenção, o refúgio e a candidatura low profile tiveram sucesso, quem tem desígnios de governar a nação não pode manter esta postura de passividade contínua.

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Certo é que o Partido Socialista se tem de demonstrar ponderado e conciliador para estancar a sangria de eleitorado que vem sofrendo. Porém, é difícil atrair votos quando não se define uma posição concreta perante diversas temáticas de interesse nacional. Ou, ainda pior, quando se proclama num sentido e se vota noutro.

O tema da habitação e da seleção nacional, revestindo-se o último de superior importância para o país, tem servido camuflado à aprovação do orçamento de estado, sendo aqui que o Partido Socialista se deixa iludir na campanha de Seguro.

Nesta estratégia do “deixa andar para ver se a seguir vou para lá eu”, Carneiro, numa interminável sequência de contradições, acaba por se abster perante um mau orçamento, como o próprio intitula. Acrescenta ainda que “o partido não faz oposição a Portugal”, levando tal atuação a crer que de facto não faz oposição a Portugal, nem a ninguém.

O Partido Socialista não deve ser responsável pelo orçamento apresentado pelo Governo e, não concordando com o documento, deve sancioná-lo na correspondente proporcionalidade, deixando o ónus de apoio ao governo para os partidos à direita.

Julgar que a paralisia política conquista votos é uma ilusão. Com este exercício Carneiro só garante mais votos ao Chega e atribui veracidade às incontáveis declarações de Ventura que sugerem um complô partidário entre PS e PSD, impulsionando o discurso unificador de se batalhar contra um sistema melindrado e que não funciona.

Em suma, o orçamento não tinha de ser chumbado, nem tão pouco existe necessidade de se provocarem novas eleições, muito pelo contrário. Pretende-se é transmitir que, pelo futuro da democracia e de um hemiciclo parlamentar plural e equilibrado, o Partido Socialista não deve ser bengala do PSD, nem pode cair nestas armadilhas que lhe retiram credibilidade e confiança política.

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