O Porto dá ou tira?

O nosso interior transmontano, que se distribui em dezenas de concelhos de menor dimensão, é marcado por uma relação de ambivalência profunda com o Porto.

O crescimento da metrópole deve-se, essencialmente, à atração de jovens qualificados, capacidade produtiva e localização das principais estruturas de saúde e economia, tendo por direta consequência o esvaziamento contínuo do nosso território.

Numa realidade idílica, este diagnóstico devia materializar-se numa consequência política assente no mote de quanto mais o Porto absorve os recursos de Trás-os-Montes e Alto Douro, maior se torna responsável pelo desenvolvimento do território transmontano.

No uso do título de capital regional, o Porto deve assumir a obrigação ética de devolver investimento produtivo, promover a descentralização e diligenciar pelo abrandar da extinção demográfica daqueles que sustentam a matriz norte comum, não podendo somente continuar com o fluxo unidirecional sem contrapartidas, através do qual beneficia de captação de energia hídrica, da exploração agrícola e vitícola e da sangria de mão de obra do nosso interior.

Sucede que permanecendo apáticos nunca nos libertaremos desta relação de dependência e vassalagem. Os autarcas que nem há um ano elegemos têm a incumbência de, em estreito compromisso com os desígnios locais, reivindicar cenários diferentes dos atuais.

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Nos concelhos de menor dimensão, o desfalque populacional de que somos alvo resulta numa realidade em que os jovens que por cá ficam trabalham nas respetivas autarquias ou nas Santas Casas da Misericórdia. As mencionadas circunstâncias não deixam de ser soluções legítimas e com certa viabilidade, no entanto mostram-se curtas para todo o potencial territorial que determinados concelhos podiam alcançar.

Neste sentido, os autarcas e membros da oposição – a quem deve ser igualmente exigida responsabilidade – não podem continuar a ser meros gestores da decadência. Pelo contrário, precisam de colocar de parte o protocolo e os bens dizeres, cooperando (com os municípios de semelhante dimensão) para que se formem blocos regionais coesos com real peso político e idênticas necessidades.

Temos de ser mais audazes, cumpre-nos entender que ninguém troca um salário de metrópole por um de interior por causa de um apoio à natalidade de 2 ou 3 mil euros, que embora útil, não é bastante. Assim, precisamos de criar condições ativas para acolher empresas, polos tecnológicos descentralizados e trabalhadores remotos.

Simultaneamente, é para tal necessário que exista uma ampla oferta habitacional, que será certamente financeiramente mais acessível e proporcionadora de melhores condições de vida que no litoral.

Deste modo, se queremos evitar a desertificação dos nossos territórios, mostra-se pertinente exigir ao Porto que nos recompense pelo que nos tira e verificar que a solução para o nosso progresso é muito simplista e reside no que atualmente não existe nos concelhos de menor dimensão: casa (oferta habitacional) e trabalho.

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