Mas para quem comenta o quotidiano político, com honestidade intelectual, é difícil resistir à tentação de iniciar qualquer análise fazendo uma lista de casos, mais que não seja pelo efeito de choque que causa. Faço aqui uma lista parcial, apenas de memória, limitando-me somente à última década. O tiroteio na igreja Emanuel African Methodist Episcopal, em Charleston (2015), perpetrado por um supremacista branco que matou nove fiéis negros; o tiroteio durante o treino do Congressional Baseball Game (2017), dirigido a congressistas Republicanos, ainda que sem vítimas mortais; o ataque de Charlottesville (2017), em que Heather Heyer foi mortalmente atropelada por um supremacista branco; o massacre na sinagoga Tree of Life (2018), justificado por antissemitismo e pela teoria da substituição, que vitimou 11 pessoas; o tiroteio de El Paso (2019), de motivação anti-imigração hispânica, com 23 mortos; a conspiração para raptar a governadora do Michigan, Gretchen Whitmer (2020); o ataque a Paul Pelosi (2022), marido da então líder Democrata Nancy Pelosi; duas tentativas de assassinato contra Donald Trump (2025); o homicídio da política Democrata Melissa Hortman e do marido, na sua própria casa (2025); e, finalmente, o assassinato do político e ativista ultraconservador Charlie Kirk (2025). É praticamente consensual que o desejável seria que nenhum destes ataques tivesse acontecido e que todas estas pessoas estivessem vivas hoje, em particular, claro, no caso mais recente de Charlie Kirk.
Não me deixo chocar pelos casos de hagiografia que acontecem quando alguém famoso e poderoso, conhecido e admirado por milhões de pessoas em todo o mundo, é morto a tiro com extrema e chocante violência. Charlie Kirk defendia o fim do divórcio sem culpa (não é necessário provar adultério, violência, abandono, etc.), o fim da interrupção voluntária da gravidez até em situações de violação ou de saúde da mulher, o fim do Civil Rights Act de 1960 que criminalizou a discriminação com base na raça, religião, género ou nacionalidade e até, pasme-se, contra a separação entre Igreja e Estado. E não estou a dizer isto, acreditem, porque fui agora ler uns artigos sobre o rapaz e vim agora para aqui citá-lo fora de contexto. Estou já há algum tempo familiarizado com as visões da extrema-direita. E o leitor também deveria estar.
Em breve terão passado 110 anos desde a brutal execução do Czar da Rússia Nicolau II e toda a sua família, na cave da casa Ipatiev, em Ecaterimburgo. Todos estamos familiarizados com os detalhes trágicos e brutais das últimas horas desta família. Mas quantos saberão que o Czar continuou os atos oficias da sua festa de coroação mesmo depois de 1200 russos terem morrido durante a sua celebração. Como ignorou e simpatizou com os pogroms antissemitas que levaram a muitas dezenas de milhares de mortos? Ou como ordenou que a guarda imperial disparasse sobre os manifestantes, matando centenas, senão milhares, de pessoas em São Petersburgo?
Se a completa miséria moral não é argumento suficiente para desencorajar o homicídio, incluindo o político, a reinterpretação da morte como apoteótica forma de engrandecimento da pessoa e, pior ainda, da causa, deveria sê-lo.



