Sexta-feira, 17 de Abril de 2026
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João Ferreira
João Ferreira
Investigador, Professor do Ensino Superior

E finalmente, boas notícias da frente leste!

Mesmo para os mais incrédulos, a maioria das sondagens já apontava para este desfecho, no qual o primeiro-ministro Viktor Orbán e o Fidesz iriam perder.

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E perderam. Mas o que hoje parece óbvio e inevitável, até à noite de dia 13 parecia quase inalcançável. Porquê? Numa entrevista ao New York Times, um académico austríaco, radicado na Hungria, esclarece, ao dizer que o sistema eleitoral húngaro é “exatamente aquilo que se esperaria de um país que inventou o Cubo de Rubik”.

Vejamos, Orbán estava há 16 anos no poder. Chegou lá quando Trump era promotor imobiliário, Giorgia Meloni uma obscura secretária de Estado, Marine Le Pen e Nigel Farage figuras marginais da política, e Alice Weidel consultora financeira. A nível mundial foi seminal para a modernização e sucesso da extrema-direita ocidental, apenas comparável às negras estrelas Putin e Erdogan. Até JD Vance o foi tentar ajudar. O agora ex-primeiro-ministro da Hungria, que começou como ativista liberal e acabou populista autoritário, não resistiu ao desgaste dos casos de corrupção inenarrável, ao enriquecimento ilícito, incluindo da própria família, e a escândalos de pedofilia no seio do seu partido. Finalmente, aliado às continuas dificuldades económicas, foi vencido.

Orbán é um animal político que se tornou primeiro-ministro pela primeira vez em 1998, mas perdeu as eleições legislativas quatro anos depois. Em 2010, regressou ao poder com uma vitória esmagadora, e aí começou a implantação da sua democrata iliberal, como ele próprio a apelida, e que tanto inspirou infelizes seguidores pelo mundo inteiro, incluindo em Portugal.

E agora, enquanto a administração Trump espera pela chegada de mais partidos de extrema-direita ao poder na Europa e a maioria dos governos da Europa aguarda pelo fim do mandato de Trump, deixem-me dar-lhes apenas dois exemplos que ajudam a explicar a Hungria manietada e de democracia de “d” pequeno de Viktor Orbán:

1) a redução do número total de lugares no Parlamento de 386 para 199 e o redesenho completo das fronteiras dos círculos eleitorais, que passaram a concentrar as zonas favoráveis à oposição em círculos eleitorais maiores e a dividir as zonas pró-governo em círculos menores, aumentando o número de deputados em favor do Fidesz;

2) alteração das leis eleitorais de forma a que, pasme-se, se transfira para os vencedores os votos dados a candidatos derrotados de forma que, nas eleições de 2022, com apenas 37% dos votos o Fidesz tenha conquistado uns impressionantes 68% dos assentos parlamentares, com os partidos abaixo do limiar de 5% a nem sequer entrarem no Parlamento. Agora podem ir ler as propostas da extrema-direita para Portugal.

Quem não anda distraído já se apercebeu que por lastimável falta de ideias e soluções a direita portuguesa anda, confusa e atarantada, a implementar o programa da extrema-direita, que é uma muito pouco patriótica e deplorável importação das ideias de Orbán.

Agora até, alimentando a obsessão doentia dos conservadores com a homossexualidade, querendo proibir bandeiras porque são do movimento LGBTQ, ou voltando a legalizar terapias de conversão. Em suma, umas monomanias cavernícolas e que nos dias de hoje não interessam nem ao menino Jesus, como se costuma dizer.

Esta última derrota do Fidesz, embora não signifique o seu desaparecimento, é um raio de sol intenso para os europeus de bom senso. E vale a pena estudar a estratégia do partido Tisza do novo primeiro-ministro magyar, de seu nome Magyar, que conseguiu ganhar eleições contra um regime agarrado ao poder e com estratégias de ataque político que têm surtido muito efeito em Portugal e arredores. Esperemos que Magyar possa corresponder à esperança que os húngaros, e os europeus, depositam hoje nele. Fácil não vai ser.

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