Para além da clara e cínica tentativa de capitalização dos resultados pertencentes a António José Seguro, a recente visita de José Luís Carneiro a Vila Real, numa segunda-feira às 21h, consubstancia-se num desses gestos que parecem resultar somente no cumprimento de calendário, mas que se abstêm do essencial: a proximidade real ao interior.
Quem não vislumbra para lá do manto rosa, muito agradece e venera a presença do líder. Contudo, não é da comparência que aqui se trata, está em causa o que esta representa. Um mero encontro semanal, marcado para uma hora tardia e num dia útil, mostra-se longe de traduzir compromisso estrutural com os territórios do interior, com os seus idosos (que são o grande eleitorado socialista) e com os seus jovens (que são o eleitorado que o Partido Socialista devia começar a captar), sendo importante pensar: o que será o país daqui a 20 anos? Revelando-se mais que evidente que grande maioria dos jovens reparte as suas intenções de voto entre Chega e Iniciativa Liberal.
Voltando ao rendez-vous político, acaba este por se concretizar num simples contacto protocolar, apressado e que dificilmente escuta quem trabalha, quem produz e que mantém viva a nossa região.
Vila Real não carece de visitas-relâmpago, nem tão pouco de agendas encaixadas entre compromissos mediáticos. Precisa que lhe seja atribuída a importância que lhe é devida, necessita de estratégia, continuidade e decisões políticas que revertam décadas de centralismos.
Na mesma senda requer um governo central que compreenda que a desertificação não se resolve com discursos noturnos, mas com políticas consistentes – que podem ser testadas na própria Administração Pública – investimento e descentralização efetiva.
O modus operandi de José Luís Carneiro, repleto de indecisões, procurando capitalizar momentos que não são seus e antecipando anúncios, emerge uma excessiva preocupação com a afirmação pessoal, parecendo que olha para o território da mesma forma: uma presença simbólica, mais útil para o retrato do que para a real transformação.
Estando o Partido Socialista a atravessar um dos mais complicados ciclos da sua história, mostrar-se-ia expectável que o líder se focasse na reconstrução de pontes, renovação de quadros e apresentação de um projeto sólido para todo o país, que abranja mais que Lisboa e Porto, não podendo o interior continuar a ser apenas cenário de campanha.
Vila Real e tantas outras cidades do interior, reclamam uma atenção permanente e não um colóquio às nove da noite. Ao contrário daquilo que quem gere a agenda de JLC possa julgar, a política de proximidade não se mede pelo número de quilómetros percorridos, mas pela capacidade de transformar realidades. E neste âmbito, infelizmente, continuamos a aguardar mais do que um salto, seja este de Carneiro ou não.



