Segunda-feira, 20 de Abril de 2026

Meia dúzia de ovos

Portugal foi profundamente atingido pela depressão Kristin, aquela que já se classifica como a tempestade mais forte alguma vez registada em Portugal Continental, tendo provocado vítimas mortais, desalojados e muitas outras nefastas consequências com impacto no futuro das famílias atingidas.

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Contudo, a passagem por Portugal foi mais que um fenómeno meteorológico intenso, mostrando-se um cruel reflexo das fragilidades estruturais do país e da forma como o poder político atua quando a realidade se impõe.

Sabe-se que um comportamento preventivo do Governo português é o oásis no deserto. No entanto, desta vez, até a conduta reativa não foi suficiente, revelando a ausência de liderança empática e firme.

Para os afetados, as consequências da depressão foram além do abstrato. São bem reais as casas desfeitas, estradas cortadas, danos nos hospitais, falhas nos sistemas de telecomunicações e milhares de pessoas sem eletricidade dias a fio, às quais se adicionam os prejuízos patrimoniais e agrícolas.

Perante o retratado evidencia-se a inatividade do Governo que se torna particularmente grave. A clara ausência de decisões eficazes e céleres, bem como uma parca e pouco objetiva comunicação e a demora na mobilização de apoios revelaram um executivo mais lento do que a urgência da calamidade exigia.

Em alturas de crise, a hesitação política transforma-se inevitavelmente numa mensagem de indiferença. Conceito este que se difunde na visita do Governo a Leiria, reforçando a perceção negativa quando a deslocação em várias viaturas – algumas de valor certamente superior às destruídas casas – se parece mais com uma caravana partidária do que com uma ação institucional, séria e discreta.

Infelizmente, não foi somente na visita que a encenação suplantou a ação. O episódio que melhor traduz este modus operandi governamental é protagonizado por Leitão Amaro, ministro da Presidência, que por intermédio de vídeo partilhado nas suas redes sociais, publicado em pleno contexto de crise, se autopromove entre telefonemas, unhas ruídas, walkie-talkies e uma imagem de cansaço ornada a preto e branco.

Centrar a comunicação na sua própria figura em detrimento das populações afetadas e soluções concretas, consubstancia não apenas um ato de egocentrismo e infantilização do exercício do poder, como principalmente um perturbador desfasamento da realidade e do momento do nacional.

Tudo isto nos transporta para a reflexão sobre a carência de noção, respeito e de hierarquização das prioridades políticas, que se alheiam à dependência excessiva das redes sociais que funcionam como mais um veículo de propaganda política.

Antes de desempenhar este papel, Leitão Amaro fora meramente vice-presidente do PSD e deputado da Assembleia da República. No exercício das atuais funções, apenas é figura principal quando vem à baila o assunto do cartel dos helicópteros e quando presta falaciosas e tristes declarações a respeito das adesões às greves ou da relação dos maquinistas ferroviários com o consumo de álcool. Neste pressuposto, mostra-se pertinente questionar se logrou a pasta ministerial da Presidência pela competência ou por meia dúzia de ovos.

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