Quinta-feira, 23 de Abril de 2026
Eduardo Varandas
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Personalidades ilustres de Guiães

Ao longo da sua história, Guiães foi berço de figuras de relevo cujo contributo, apesar de significativo, permanece ainda hoje envolto num injusto esquecimento.

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Entre essas personalidades destacam-se duas mulheres cuja vida e obra estiveram profundamente ligadas ao universo das letras, dignificando não só a terra que as viu nascer, mas também, de forma mais abrangente, a região transmontana e alto-duriense.

Referimo-nos a Dona Cattarina Máxima Feyo de Figueiredo de Abreu Castello Branco, nascida em 1829, e a Dona Maria Genoveva Figueiredo Feyo Rebelo Castello Branco (1870–1939), duas autoras cuja produção literária merece ser redescoberta, estudada e valorizada.

Dona Cattarina Máxima Feyo de Figueiredo de Abreu Castello Branco insere-se na corrente da poesia ultrarromântica, refletindo nas suas obras uma sensibilidade intensa, marcada pela introspeção, pela melancolia e pela reflexão sobre os grandes temas da existência. Entre os seus trabalhos conhecidos destacam-se ‘Fragmentos de Prosa e Verso’, ‘Viuvez e Saudade’ e ‘Última Estância’. Esta última obra assume particular importância simbólica, uma vez que dela foram retirados os versos que ainda hoje se encontram inscritos no cemitério de Guiães, assinados com as iniciais D.C.M. Esses versos, densos e sugestivos, transportam-nos para uma dimensão de contemplação do transcendente e do espiritual, convidando a uma reflexão profunda sobre a condição humana e o além.

Por sua vez, Dona Maria Genoveva Figueiredo Feyo Rebelo Castello Branco produziu uma obra literária diversificada e igualmente significativa. A ela são atribuídas obras como Alma de Mulher, Antigas Aparições de Fátima, Calvário de Mulher, Herói do Marne — o Glorioso Marechal Joffre e Heróis Desconhecidos. Através destes títulos, revela-se uma autora atenta às questões do seu tempo, capaz de conjugar temas de espiritualidade, história e condição feminina. Para além da sua atividade literária, destacou-se ainda como uma republicana convicta e defensora dos direitos das mulheres, posicionando-se, assim, como uma figura de pensamento progressista no contexto da sua época.

Apesar da relevância das suas obras, constatamos com pesar que nenhuma delas se encontra atualmente disponível nas livrarias, desconhecendo se também se integram o acervo de alguma biblioteca pública ou privada. Este facto contribui para o progressivo apagamento da sua memória e da importância do seu legado cultural.

Neste contexto, parece oportuno sugerir ao Grémio Literário Vila-realense que, no âmbito dos seus objetivos de promoção, divulgação e estudo dos escritores transmontanos e alto-durienses, considere a possibilidade de promover a reedição e divulgação de algumas das obras aqui mencionadas. Tal iniciativa constituiria um passo importante para a valorização do património literário regional.

Resgatar do esquecimento a vida e a obra destas duas notáveis mulheres de Guiães não é apenas um ato de justiça histórica, mas também uma forma de enriquecer o panorama cultural local e regional.

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