Mulher transmontana de mãos firmes e olhar atento, era conhecida não só pelo nome singular, mas sobretudo pelo pão que saía do seu forno, ainda antes do sol vencer a neblina das manhãs frias.
Era uma mulher de armas, serena, tranquila e sabedora, qualidades que, a par de outras mulheres da sua geração, faziam dela uma das mulheres mais admiradas da sua terra. Retenho ainda na minha memória a imagem daquela figura simpática e acolhedora debruçada sobre o balcão da sua padaria dando sempre dois dedos de conversa aos fregueses que ali se deslocavam para comprar umas bolas de trigo, broas de milho ou centeio que ela, mais do que ninguém, sabia confecionar com esmero e sabor excecional.
A padaria da tia Camões era mais do que um lugar de trabalho: era um dos pontos de referência da aldeia. Dali vinha o cheiro quente que acordava os vizinhos, o som da pá de madeira a rodar os pães, e a certeza de que ninguém começaria o dia de estômago vazio. Amassava a farinha com gestos ancestrais, respeitando o tempo da massa como quem respeita a própria terra.
Essa farinha vinha do tio Paredes, seu companheiro de uma longa vida e de ofício. Homem de poucas palavras e passos seguros, descia ainda de madrugada até ao moinho nas margens do rio Ceira, afluente da margem direita do Douro. O moinho, movido pela corrente constante da água, gemia baixo enquanto as mós trituravam os cereais. Centeio, trigo e milho passavam pelas suas mãos calejadas antes de regressarem à aldeia em sacas bem atadas, transportadas no dorso do seu inseparável jumento.
O Ceira corria ali com paciência antiga, espelhando vimeiros e pedras lisas, e parecia entender a importância daquele trabalho silencioso. Sem o rio, não haveria farinha; sem farinha, não haveria pão; e sem pão, a aldeia perderia parte da sua alma.
A tia Camões e o tio Paredes quase não precisavam de palavras para se entender. O ritmo do moinho e o calor do forno marcavam o compasso da vida comum. Quando ele chegava com a farinha fresca, ela já tinha o fermento acordado, como se tudo estivesse combinado desde sempre.
Assim se sustentava a aldeia: entre a água do rio e o fogo do forno, entre a força tranquila do tio Paredes e a sabedoria paciente da tia Camões. E enquanto o pão continuasse a sair dourado e estaladiço, a aldeia saberia que, apesar do passar dos anos, certas coisas permaneciam no seu lugar.
Corria-lhe nas veias a bondade e a destreza da mulher transmontana dos primórdios do século XX, forjadas na dureza da vida rural daquele tempo. Assim nasceu e viveu uma mulher simples e perspicaz que ficou na memória de quantos a conheceram e com ela conviveram.
PS: Para todos os colaboradores, assinantes e leitores da VTM, desejo uma feliz quadra natalícia.




