A Roda era um mecanismo giratório, geralmente instalado numa parede exterior da instituição, que permitia colocar as crianças no interior do edifício sem que quem as abandonava fosse identificado. Após rodar o mecanismo, um sino alertava os funcionários da Santa Casa para a chegada de mais um exposto. Este sistema, existente em vários países europeus, pretendia conciliar a proteção da vida das crianças com o anonimato dos pais, evitando o infanticídio e o abandono em locais perigosos.
Durante o século XIX e princípios do século XX, o abandono de crianças foi um fenómeno social marcante em Portugal, particularmente nos grandes centros urbanos como Lisboa. A Roda da SCML desempenhou um papel fundamental na resposta a este problema, funcionando como uma instituição de acolhimento para recém-nascidos e crianças deixadas de forma anónima pelos seus progenitores.
Em Lisboa, a Roda da SCML tornou-se, desde cedo, um dos principais destinos para estas crianças, conhecidas como “expostos”. Muitas eram recém-nascidas, frequentemente deixadas com pequenos sinais de identificação, como fitas, medalhas ou bilhetes, na esperança de um eventual resgate. Alguns destes objetos estão presentes na exposição.
As razões que levavam ao abandono eram variadas, estando, porém, profundamente associadas às condições sociais e económicas da época. A pobreza extrema, o desemprego, as más condições de habitação e a ausência de apoios sociais empurravam muitas famílias para decisões desesperadas. Um caso paradigmático passava-se com as mães solteiras, que enfrentavam um forte estigma social, sobretudo no século XIX, sendo frequentemente rejeitadas pela família e pela comunidade.
Após a entrada na SCML, as crianças eram registadas e, sempre que possível, entregues a amas de leite, geralmente mulheres do meio rural que recebiam uma remuneração para cuidar dos bebés. Mais tarde, algumas crianças regressavam à instituição, enquanto outras permaneciam com as amas até à adolescência.
A Roda da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa constitui um importante testemunho da forma como a sociedade portuguesa enfrentou, ao longo do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, o problema do abandono infantil. Embora marcada por limitações e dificuldades, esta instituição salvou inúmeras vidas e reflete as profundas desigualdades sociais da época, bem como a evolução das políticas de assistência e proteção à infância em Portugal.
Pelo que me foi dado observar, recomendo vivamente a visita a quem estiver interessado nestas temáticas.





