Segunda-feira, 20 de Julho de 2026
Eduardo Varandas
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O cemitério militar português de Richebourg e outros apontamentos

No passado mês de outubro, desloquei-me a França, na companhia do meu estimado amigo Coronel Eng. Paulo Belchior para ambos, procedermos a uma inspeção técnica ao estado de conservação do Cemitério Militar Português, situado em Richebourg l´Avoué, no norte de França, onde repousam os restos mortais de 1831 soldados portugueses, caídos durante a 1.ª Guerra Mundial.

Este cemitério classificado pela Unesco, como Património Mundial da Humanidade, em conjunto com outros sítios idênticos, onde se incluem cemitérios ingleses, canadianos, um indiano e um chinês, requer uma atenção permanente das autoridades portuguesas no sentido de se preservar o seu estado atual, que se encontra bem cuidado e apresentável, para que o estatuto de que goza não seja posto em causa por incumprimento das normas estabelecidas por aquela Organização das Nações Unidas, para a Educação, a Ciência e a Cultura.

A propósito desta minha deslocação a terras gaulesas, não posso deixar de referir um pequeno episódio que vivi, enquanto seguia a bordo do táxi a caminho do aeroporto Humberto Delgado. Ao meter dois dedos de conversa com o taxista, em que naturalmente veio à baila o objetivo da minha viagem, o homem ficou muito admirado ao saber da existência, em França, de um cemitério português com um tão elevado número de sepulturas de soldados portugueses. O que mais me surpreendeu, perante tamanha ignorância, foi o facto dele ter sido fuzileiro e nunca ter ouvido falar em semelhante coisa. Na verdade, o grau de desconhecimento, que se verifica na sociedade portuguesa, sobre este e outros temas da nossa vida coletiva, é tão notório e incompreensível que nunca mereceu das entidades responsáveis pela preservação da memória, qualquer ação pedagógica tendente a incutir nos nossos concidadãos o interesse pelos factos mais relevantes da nossa história. De certo modo, já nada me espanta que assim aconteça.

Basta ver o que se passa com as celebrações do Armistício da 1.ª Guerra Mundial, onde franceses e ingleses evocam com grande dignidade e respeito esse período negro da humanidade, com o envolvimento da própria sociedade civil, como é o caso, por exemplo, em Inglaterra, nos jogos de futebol, ver os jogadores exibirem a papoila, logótipo simbólico dessa tragédia mundial e por cá – se excetuarmos a Liga dos Combatentes, que todos os anos assinala com sentido patriótico essa data histórica – a evocação é totalmente ignorada, mesmo pelos próprios órgãos de comunicação social. Tendo a própria RTP o desplante de emitir reportagens sobre o que se passa lá fora e ignorar pura e simplesmente, o que acontece dentro de portas. Em tempos, o canal público, questionado sobre o porquê deste procedimento, respondeu que tudo tem que ver com critérios editoriais. Quando um órgão de comunicação social do Estado tem esta postura, estamos conversados.

Resta-me acrescentar que a missão de que tínhamos sido incumbidos, foi cumprida integralmente, contando para isso com a excelente colaboração do Adido Militar de Defesa, junto da nossa embaixada em Paris, o Comandante Sérgio Pinto e do seu adjunto Chefe Viegas.

ARTIGOS do mesmo autor

NOTÍCIAS QUE PODEM SER DO SEU INTERESSE

ARTIGOS DE OPINIÃO + LIDOS

Notícias Mais lidas