Quinta-feira, 23 de Abril de 2026
Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Regiões à medida de cada um

Um conjunto de pessoas bem-intencionadas organizou uma conferência sobre o centralismo. Os jornais voltaram a falar do tema, mas agora com o beneplácito da própria autoridade que reflete, critica e é criticada sobre o assunto.

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Terminou a conferência e, como qualquer conferência boa, nada se aprendeu de novo nem nada de novo foi promovido. Se a Rosalía tivesse atuado no mesmo espaço, naqueles dois dias, o impacto teria sido eventualmente maior – quer no assunto, quer no alcance alcançado.

Ao longo dos anos, confesso que a minha evolução sobre a temática foi rumo ao cinismo. Defeito de quem começou considerando sua terra e sua região as melhores do mundo. Depois, mais pela realidade do que pela teoria e pelos livros, percebi que os modelos de regionalização desenhados em Portugal são isso mesmo – bonecos, construções, para serem, sobretudo, apreciados em termos estéticos, como as exposições temporárias de Serralves.

Há, ainda, a nítida percepção de que cada grupo de interesses tem o seu próprio interesse na regionalização. Determinados políticos, ao falarem em regionalização, claramente querem que os Ministérios, as Secretarias de Estado e as Direções Gerais vão para longe de Lisboa e para eles ou para perto deles. Outros, ao falarem de regionalização, querem que as grandes obras que veem em Lisboa se realizem ao pé das suas hortas. Há também aqueles concidadãos que, quando discutem o tema, pensam nos bons empregos que ouviram dizer que existem em redor do Terreiro do Paço e querem-nos no Paço do Terreiro, no meio da freguesia. Existem ainda outros – por exemplo, os intelectuais e artistas – que pensam que se a regionalização acontecesse, as suas tiragens na prensa local ou municipal depressa se transformariam em blockbusters com edições internacionais, facilmente concorrendo ao Nobel da coisa.

No início, eu pensava que a culpa era mesmo de Lisboa que, concentrando poder, recursos, capitais e gentes gerava em termos territoriais aquilo que hoje se denomina da Teoria de Captura pelas Elites. Que, para miúdos, se explica assim: os melhores, os mais ricos, os mais bonitos e os mais poderosos não tem culpa mas quando o sol brilha, brilha sempre mais para eles. Não porque sejam ávidos burgueses, mas porque as estruturas e as instituições, no inconsciente delas, gostam de favorecer os melhores, os mais ricos, os mais bonitos e os mais poderosos. Compreendo, agora, as coisas de outra maneira: muito da regionalização é desfigurado porque cada um tem a sua. Cada um puxa para o seu lado. E quem manda mesmo, continua em Lisboa. Que, apesar de tudo, tem cada vez mais gente. Incluindo regionalistas – ou que antes eram regionalistas.

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