Domingo, 19 de Abril de 2026
Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O futebol que vem do frio

A localidade de Hällevik, vila piscatória na Suécia, pode muito bem ser a sede do próximo campeão de futebol da I Liga daquele país (o Mjällby)

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A vila piscatória, que desenvolve também alguma atividade no setor agrícola, tem menos de 2000 habitantes e o estádio emprestado por um concelho vizinho consegue acolher cerca de 7000 pessoas. Depois de uma profunda reestruturação financeira e desportiva em 2016, o clube começou um percurso muito curioso, que culminou no quinto lugar do campeonato principal sueco do ano passado e provavelmente num lugar no pódio, na pior das hipóteses, neste ano (faltam menos de 10 jornadas para o final do campeonato).

Quando olhamos para as duas principais ligas de muitos países, ainda que não muito frequentes, aparecem clubes sediados em localidades de menor densidade. Por exemplo, Sassuolo, Empoli ou Heracles Almelo acompanham Famalicão, Aves SAD, Villarreal ou Mjällby na senda de primodivisionários sediados em localidades com menos de 100 mil habitantes.

Isto prova que a hipótese de clubes mais competitivos em regiões mais ricas (hipótese que venho trabalhando desde há mais de quinze anos) não é necessariamente uma fatalidade, ainda que seja uma tendência. Aliás, quase em complementaridade, a incapacidade de transformar dinheiro em resultados acontece sempre nalguns clubes mais ricos. Em todos os campeonatos, há também um ou mais exemplos de clubes que gastaram/gastam muito dinheiro sem conseguir resultados proporcionais. O que também prova que a competição desportiva acaba por ‘deflacionar’ o peso do dinheiro aplicado. Aliás, se os orçamentos marcassem golos e ganhassem pontos, a disparidade ao longo do campeonato seria muito maior do que a existente para a generalidade das competições. Isto acaba por contrariar uma certa sede de fundos que inquina a discussão em torno da centralização dos direitos televisivos. Em concreto, os clubes não-grandes do nosso campeonato profissional de futebol acabam por ser mais bem-sucedidos que os grandes no que toca a traduzir dinheiro por pontos.

Aqui chegados, podemos perguntar – então, o que separa Portugal da Suécia? Desde logo, a centralidade do nosso futebol na rede de transferências de jogadores face à periferia dos nórdicos. Isto faz da nossa liga e do nosso futebol locais que funcionam como “áreas de serviço”, campeonatos de passagem para as Big 5, e por onde milhões e milhões de euros circulam sem, muitas vezes, contribuírem para a economia nacional ou local. E acima de tudo o país é local de passagem rápida de capitais. Talvez um dia um clube não-grande consiga (novamente) ganhar a Liga Portuguesa. E consiga evitar que, décadas depois, como um Belenenses ou um Boavista, não entre em falência e termine a jogar nas distritais. O difícil, como dizia um célebre orador romano, não é chegar ao topo mas sim nele permanecer.

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