Sábado, 6 de Junho de 2026
Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Venham os turcos gravar na nossa terra!

Há dias, houve grande alarido pela exibição do filme Trás-os-Montes do Reis e da Cordeiro na RTP2! Lá o revi e mais uma vez confirmei aquilo que uma amiga, há dez anos, numa esplanada na Avenida, me contava “Quando pensam em Trás-os-Montes, pensam só no bucólico, na ruralidade, nos planos profundos”!

Muito da ficção gerada em redor de, sobre ou a partir de Trás-os-Montes e Alto Douro usa e abusa do lirismo bucólico, da mansidão da paisagem e do medievalismo da economia. Nada contra se tal abuso fosse inconsequente. Mas tal abuso não é inconsequente.

Primeiro, porque cristaliza uma imagem de região atrasada quando a região no seu todo e os locais urbanos, semi-urbanos ou peri-urbanos têm indicadores de qualidade de vida próximos de muitos outros locais do país.

Em segundo lugar, desvaloriza as intenções de investimento e inflaciona os custos dos projetos a serem localizados.

Em terceiro lugar, gera uma cultura de preconceito que cola aos naturais da região, levando a que a mesma esteja praticamente incapaz de ter políticos em lugar de relevo no resto do país, que obriga a que os plantéis de futebol sejam muito mais caros aqui porque os senhores jogadores do litoral não querem vir jogar para a região retratada como atrasada ou até leva a que os concursos para professores de carreira universitária fiquem muito mais raros nas instituições da região do que noutras paragens. Além de que tal imagem alimenta o retrocesso demográfico, não favorece o amor-próprio dos residentes, investidores e até agentes políticos do local, assim como torna muito difícil que a rapaziada das equipas da região consiga ganhar campeonatos no resto do país. Curiosamente, antes, há muitos anos, como todo o país era bucólico e cinzento, a maioria das regiões, desde a Portela do Homem até à Amareleja eram bucólicas e cinzentas e nenhuma ficava mais bucólica ou mais cinzenta devido ao preconceito intelectual e à cristalização cultural das élites metropolitanas.

-PUB-

Faltam por isso os realizadores turcos que recheiam os canais portugueses com novelas rodadas em Istambul moderno, com atores sofisticados, vestidos com alta costura, conduzindo carros de alta gama e preocupados com quem vão casar dois episódios à frente. Em contrapartida, quando alguma novela se passa no Douro, rodada pelos realizadores subsidiados pelo Estado Português, lá temos a avó que chora o neto emigrado, a filha do caseiro apaixonada pelo patrãozinho que estuda no litoral e o merceeiro a fazer de João Semana. Mas, um dia, os realizadores turcos vão descobrir o Largo da Capela Nova e aí vamos ver atores de renomada, a desfilarem nos centros urbanos da nossa região, a telefonarem para São Bento entre um covilhete e um pastel de Chaves, e, depois, enquanto bebem água das Pedras, a preocuparem-se com a evolução do Dow Jones. Afinal, como todos sabem, esta é a realidade habitual de um transmontano de classe média.

ARTIGOS do mesmo autor

NOTÍCIAS QUE PODEM SER DO SEU INTERESSE

ARTIGOS DE OPINIÃO + LIDOS

Notícias Mais lidas