Domingo, 19 de Abril de 2026
Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Venham os turcos gravar na nossa terra!

Há dias, houve grande alarido pela exibição do filme Trás-os-Montes do Reis e da Cordeiro na RTP2! Lá o revi e mais uma vez confirmei aquilo que uma amiga, há dez anos, numa esplanada na Avenida, me contava “Quando pensam em Trás-os-Montes, pensam só no bucólico, na ruralidade, nos planos profundos”!

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Muito da ficção gerada em redor de, sobre ou a partir de Trás-os-Montes e Alto Douro usa e abusa do lirismo bucólico, da mansidão da paisagem e do medievalismo da economia. Nada contra se tal abuso fosse inconsequente. Mas tal abuso não é inconsequente.

Primeiro, porque cristaliza uma imagem de região atrasada quando a região no seu todo e os locais urbanos, semi-urbanos ou peri-urbanos têm indicadores de qualidade de vida próximos de muitos outros locais do país.

Em segundo lugar, desvaloriza as intenções de investimento e inflaciona os custos dos projetos a serem localizados.

Em terceiro lugar, gera uma cultura de preconceito que cola aos naturais da região, levando a que a mesma esteja praticamente incapaz de ter políticos em lugar de relevo no resto do país, que obriga a que os plantéis de futebol sejam muito mais caros aqui porque os senhores jogadores do litoral não querem vir jogar para a região retratada como atrasada ou até leva a que os concursos para professores de carreira universitária fiquem muito mais raros nas instituições da região do que noutras paragens. Além de que tal imagem alimenta o retrocesso demográfico, não favorece o amor-próprio dos residentes, investidores e até agentes políticos do local, assim como torna muito difícil que a rapaziada das equipas da região consiga ganhar campeonatos no resto do país. Curiosamente, antes, há muitos anos, como todo o país era bucólico e cinzento, a maioria das regiões, desde a Portela do Homem até à Amareleja eram bucólicas e cinzentas e nenhuma ficava mais bucólica ou mais cinzenta devido ao preconceito intelectual e à cristalização cultural das élites metropolitanas.

Faltam por isso os realizadores turcos que recheiam os canais portugueses com novelas rodadas em Istambul moderno, com atores sofisticados, vestidos com alta costura, conduzindo carros de alta gama e preocupados com quem vão casar dois episódios à frente. Em contrapartida, quando alguma novela se passa no Douro, rodada pelos realizadores subsidiados pelo Estado Português, lá temos a avó que chora o neto emigrado, a filha do caseiro apaixonada pelo patrãozinho que estuda no litoral e o merceeiro a fazer de João Semana. Mas, um dia, os realizadores turcos vão descobrir o Largo da Capela Nova e aí vamos ver atores de renomada, a desfilarem nos centros urbanos da nossa região, a telefonarem para São Bento entre um covilhete e um pastel de Chaves, e, depois, enquanto bebem água das Pedras, a preocuparem-se com a evolução do Dow Jones. Afinal, como todos sabem, esta é a realidade habitual de um transmontano de classe média.

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