Mas, em 1926, Vila Real via entrar em funcionamento a Central Hidroelétrica do Terragido, que passou a substituir a antiga Central do Biel no fornecimento de energia elétrica à cidade. Também nesse ano a Igreja de São Domingos (a atual Sé Diocesana) foi oficialmente classificada como Monumento Nacional. Este reconhecimento valorizou o património histórico e cultural da cidade, reforçando a sua proteção e importância para as gerações futuras. Aliás, esse reconhecimento é um corolário de uma população qualificada e dinamizada em prol de uma diocese nascente, mas também de uma Igreja de São Domingos reconduzida à sua centralidade.
A reação vila-realense aos acontecimentos de 28 de maio de há 100 anos foi a habitual para uma cidade que, apesar de tudo, tinha uma capitalidade muito própria, assim como elites diversificadas e influentes. A cidade reagiu com prudência política e com altivez regionalista.
A tibieza vila-realense era própria de uma cidade que ainda guardava viva a memória das lutas da Traulitada, com sangue e assassinatos entre a população. As elites locais espelhavam a heterogeneidade política e parlamentar que ecoava a partir de São Bento. As estruturas económicas e quase industriais faziam o seu caminho autossuficiente; umas assegurando a agricultura de heranças e de tardanças; outras, tentando laivos industrialistas ainda muito presos ao alcance da ferrovia emergente e das delegações bancárias. As explorações mineiras dinamizam várias prospeções promissoras, mas, olhando os livros de créditos dos bancos, percebe-se que as estruturas patronais da região procuravam atender aos pagamentos salariais, responder ao crédito ao consumo (próprio de uma cidade já com o seu perfil e a sua camada consumidora), assim como a algum crédito à habitação. Aliás, Guedes de Amorim, no premiado “Aldeia das Águias”, retrata com muita simpatia e brio a cidade de há 100 anos que ia do Liceu ao Cabo da Rua Direita.
Cem anos depois, a centenária Vila Real preserva traços que a tornam única: a serenidade face às convulsões políticas nacionais, a vocação empreendedora que a aproxima da indústria e a força das suas elites locais, que continuam a garantir dinamismo e identidade em espaços de decisão local e para os locais. Ou então se quisermos ser irónicos depois dos fritos do Natal e do Ano Novo: “100 anos depois, a centenária Vila Real mantém algumas das qualidades de então: a distância para com os acontecimentos políticos do país, a quase-indústria na estrutura nacional e a existência das elites autossuficientes em enclaves administrativos”. A escolha – agora, como ao longo do ano que desejo bom para todos – é de cada um.




