Olhamos para uma realidade e desejamos que a mesma não esteja tão concentrada num lugar, numas pessoas ou num grupo de pessoas. Depois, passa”.
Houve, quase imediatamente, um sorriso geral feito gargalhada surda naquela sessão da Conferência Mundial da International Economic Association, que, neste ano de 2026, decorreu em Belgrado. No final da sessão, enquanto a maioria saía para ganhar vez na fila do almoço em buffet (sempre recheado com iguarias sérvias e explicadas ao longo das mesas), apercebi-me que estávamos sós na sala – eu, a terminar uns emails que um Diretor de Departamento tem sempre de responder, e ele, a meter uns apontamentos manuscritos na pasta de cabedal velho.
“The joke about the communist mood is not properly an original one.” Fui-lhe dizendo para captar a atenção. E ele, que eu aprendera a ler pelos primeiros livros que apanhei na licenciatura, sorriu e comentou “Usually, bad jokes are more reliable than the good ones.”
Enquanto percorríamos os amplos corredores do Sava Center, originalmente construído pelo partizan Tito para ser a sede dos Não-Alinhados, aquele Professor confirmava pela vida e pela experiência: “A minha geração viveu o Maio de 68. E se há algo em comum com a geração dos miúdos de agora é a indispensabilidade dos heróis, dos líderes e dos grupos de referência.”
Fiz-lhe notar que isso era muito romantismo do século XIX, difícil de incorporar na Teoria das Elites ou nos Mercados Imperfeitos do Século XXI. “Talvez” sempre ele ia consentindo. “Mas as pessoas, depois de invejarem e verem que não têm nenhuma revolução a que se agarrarem em redor, copiam. Por isso, invejamos os ricos e, sem a revolta do proletariado, tentamos copiá-los. Invejamos os santos e, sem protestantes que os humanizem, tentamos copiá-los.”
Entretanto, chegámos ao fundo de uma das filas para os buffets. E ele, com o seu ‘cap’ enfiado na cabeça grisalha disse por fim: Invejamos as pessoas que são livres e, sem uma revolta que desfigure os mais livres, tentaremos sempre copiá-las por fim.

