Num dos meus passeios por trilhos do Alvão, fora do Alvão vila-realense, dei por mim a cruzar-me com um sujeito barrigudo, camisa de fora, suado. Trazia um pequeno podengo, por sinal afável ou, eventualmente, envelhecido.
– Boa tarde!
E a resposta sorridente do sujeito, os óculos graduados e embaciados fixados em mim, fizeram-me reconhecê-lo:
– Espera lá! É o Doutor…?
E ele:
– Sou, senhor Professor!
Grande abraço entre dois homens dos números num trilho do Alvão.
Conhecera-o há mais de vinte anos. Era um homem que dinamizava investimento como outros batiam cartas na sueca. Ligava, conversava, o investimento acontecia. Muitos parques industriais em Braga e em Guimarães foram criação sua. Dezenas de empresas ele deslocou para lá, ajudando a criar outras centenas de unidades empresariais e dando emprego e trabalho para milhares de ativos. Ganhara peso, bonomia mas também relaxamento.
Conversámos sobre os números mas sobretudo sobre a vida, que é o mais importante! Tinha-se reformado, já não era chefe de divisões, regressara a uma casa que fora dos sogros, esses, sim, transmontanos e dos bons!
Já quase no fim da conversa, o sol de inícios daquela primavera era promissor àquela hora, o podengo focinhava algo uns metros à frente, quase longe da nossa vista, lembrei-me de uma das máximas dele:
– Ainda se recorda como se fazem filhos e empresas?
Ele riu e comentou:
– O Professor Mourão lembra-se de cada coisa!
E depois, quase emocionado, repetiu naquele trilho poeirento do Alvão algo que vinte anos antes o sujeito dissera num grande anfiteatro: “As empresas fazem-se a partir das que tens em casa. Porque já se diz em Vieira: Filhos e eira fora dos teus quintais, a outros chamarão de pais.”




