Afogamento infantil: quando saber nadar não chega

A nível mundial, o afogamento permanece uma das principais causas de morte por lesões não intencionais, atingindo de forma particular crianças, homens e populações com menor literacia e menores recursos económicos.

Em Portugal, os dados disponíveis apontam para centenas de mortes e internamentos por afogamento infantil nas últimas décadas, muitas vezes em praias, rios, piscinas ou tanques sem vigilância adequada. Apesar disso, o problema continua pouco visível no debate público e na agenda política de saúde.

Muitas famílias assumem que “quem sabe nadar está seguro”. Essa ideia é enganadora. Atravessar uma piscina ou “dar umas braçadas” é diferente de ter competências de sobrevivência aquática: flutuar sem apoio, manter a calma em águas profundas, reconhecer zonas perigosas ou reagir a uma queda inesperada à água. Do ponto de vista da saúde pública, esta distinção é essencial.

Um estudo recente da Unidade de Saúde Pública do Alto Tâmega e Barroso, com crianças de escolas municipais de natação da região, mostra algo que já suspeitávamos: uma sobrevalorização das capacidades das crianças por parte delas próprias e dos pais. A análise preliminar indica discrepâncias em competências chave, como flutuar ou nadar de costas de forma eficaz. Essa confiança excessiva pode traduzir-se em menor supervisão e maior exposição a locais não vigiados.

Outro sinal de alerta é a frequência de espaços aquáticos sem vigilância ou sem adultos por perto. Uma parte das crianças relata idas a rios, tanques, lagoas ou zonas de mar sem supervisão parental ou presença de nadador-salvador. E aquilo que não é reconhecido como risco, dificilmente é alvo de prevenção.

-PUB-

Do ponto de vista de saúde pública, estes dados reforçam três ideias essenciais. Primeiro, a segurança aquática deve ser tratada como competência básica, tal como saber atravessar a estrada ou usar cinto de segurança. Segundo, os programas de natação precisam de integrar, para além da técnica, componentes de educação para o risco: reconhecer correntes, identificar sinais de exaustão, não nadar sozinho, evitar álcool e brincadeiras perigosas. Terceiro, pais e cuidadores têm de ajustar a supervisão à idade e às capacidades reais das crianças, e não apenas ao que elas dizem conseguir fazer. Supervisão ativa, próxima e sem distrações continua a ser das medidas mais custo efetivas na prevenção de afogamentos

Neste verão, talvez devamos trocar a pergunta “O meu filho sabe nadar?” por “O meu filho está preparado para estar em segurança na água?”. A diferença pode parecer subtil no papel, mas, na prática, é nela que se joga a fronteira entre um momento de lazer e uma tragédia evitável.

ARTIGOS do mesmo autor

NOTÍCIAS QUE PODEM SER DO SEU INTERESSE

ARTIGOS DE OPINIÃO + LIDOS

Notícias Mais lidas