Quarta-feira, 1 de Julho de 2026

Os Cânticos na Liturgia Cristã

Um dia, no fim da missa duma visita pastoral, D. Joaquim Gonçalves dirigiu-se ao coro paroquial e, após agradecer a sua atuação e dedicação, deixou um pequeno reparo sobre um cântico que, nas suas palavras, “era um cântico mentiroso, cantamo-lo, mas não o sentimos nem o vivemos.

A liturgia deve ser digna e honesta. A Missa não é para festivaleiros”. Vale a pena pensarmos um pouco nestas palavras. Anda por aí em muitas eucaristias muito ruído e entretenimento agradável, mas pouca espiritualidade e verdade no que se celebra.

Considero que dentro da Igreja há várias sensibilidades que devemos acolher e respeitar, e não sou a favor que se estabeleça uma linha rígida e exclusiva na celebração da liturgia quanto aos instrumentos e quanto aos cânticos. Mas também convém não esquecer que na liturgia, sobretudo na letra, os cânticos devem partir da Palavra de Deus e também são momentos para se passar a doutrina e a catequese da Igreja. Os cânticos também são momentos de diálogo com Deus, para O ouvirmos e para lhe falarmos, e para a Igreja cantar aquilo em que acredita. Muitas vezes cantamos tanta coisa na Igreja que não vivemos e não sentimos e até nem estamos dispostos a viver, e que não expressam a busca e o encontro com Deus. Deus nos livre de andarmos a cantar cânticos na liturgia só para termos momentos agradáveis ou para nos entretermos uns com os outros, sem nos apercebermos de que estamos a dialogar com Deus e a falar-lhe da nossa vida com verdade. Já dizia o profeta Isaías: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração anda longe de Mim. É vão o culto que me prestam”.

Temos cânticos litúrgicos muitos bons, de grande qualidade musical e com uma mensagem muito forte e clara. Cânticos que devem gerar vida nova. Como tudo seria tão diferente na vida da Igreja e no mundo se os cristãos praticassem o que cantam. Mas, infelizmente, passamos muito pela música e pela liturgia, mas parece que a música e a liturgia não passam por nós. E mais uma vez o digo: Deus nos livre de andarmos para aí embriagados num ritualismo que não nos converte, que não nos molda e não nos ajuda a crescer na identificação com Jesus Cristo, um ritualismo sem consequências na vida pessoal, eclesial e social, um ritualismo que entretém e ajuda a passar o tempo.

Mais honestidade e compromisso na liturgia e na vida e menos festival e entretenimento. Quem canta, reza duas vezes. Mas quem canta só por cantar, não reza nada e é vão o culto que presta a Deus.

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