Quinta-feira, 25 de Junho de 2026

Há vítimas e vítimas

O bispo Andrés Carrascosa Coso, núncio apostólico em Portugal, deu recentemente uma entrevista ao jornal Expresso.

Vale a pena destacar algumas afirmações, que me parecem oportunas. Reconhece que Fátima é, de alguma forma, o centro da fé cristã e da religiosidade portuguesa. Mas chama atenção para o caminho a seguir: “Não vale apenas ficar na emoção daquela praça cheia de velas. Emociona, mas não serve de nada. Maria vai sempre levar-nos a Jesus, vai levar-nos ao centro do Evangelho. Temos de viver essa religiosidade popular tão forte partindo do Evangelho. Temos de evangelizá-la.”

Distorcemos muito o acontecimento de Fátima se o reduzirmos apenas a um espaço de pagamento de promessas, de busca de bênçãos e favores para uma vida sem sofrimentos e percalços, de procura de sentimentalismo sem conversão. Viver Fátima sem uma relação viva com Jesus Cristo e com a Igreja, a começar pela paróquia de que fazemos parte, e sem compromisso por viver o Evangelho, é uma inaceitável adulteração da mensagem e da espiritualidade de Fátima. E muitos fatimistas correm esse risco, desligados que andam, sobretudo, da paróquia.

Depois o bispo Carrascosa sublinha três dados importantes que a Igreja portuguesa fez na condução do processo de compensações das vítimas de abuso sexual por membros do clero: a Igreja fez uma coisa que, por lei, já não estava obrigada a fazer, estava tudo prescrito. Claro que para a Igreja não conta só a lei, perante Deus e moralmente havia responsabilidades a assumir. Mas fez o que fez porque o quis fazer; pagou valores mais altos em comparação com outros países; fez o que o Estado português há muito prometeu fazer e nunca fez, quando saiu o relatório sobre a Igreja em Portugal. Em 2025, os relatórios sobre abuso sexual sobre crianças concluíram que 58% dos casos aconteceram nas famílias e outros têm acontecido nas escolas. Que clamor social se tem levantado por estas vítimas, a quem ninguém dá atenção? Só se fala e só se explora com sensacionalismo o que aconteceu na Igreja? Só interessa falar de umas vítimas e de outras não? Seremos uma sociedade farisaica?

No campo das vocações, muitos cristãos expressam a opinião de que sem o celibato a Igreja assistiria a uma nova primavera vocacional. O Bispo Carrascosa lembra que algumas confissões religiosas permitem o casamento dos ministros ordenados e também estão a viver uma crise vocacional, algumas até pior do que a nossa. Na verdade, a questão é mais profunda, é uma questão de fé.

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