Quarta-feira, 15 de Julho de 2026
João Ferreira
João Ferreira
Investigador, Professor do Ensino Superior

Entre o bafio da nova direita e o soccer comunista do Mundial

Temos a reforma da legislação laboral engavetada, uma Prestação Social Única encalhada e os negócios da Spinumviva ao virar da esquina, à espreita.

Os salários continuam sem crescer, as casas continuam a encarecer e o SNS na mesma, como a lesma. Agora que a lei da nacionalidade mudou e que temos menos imigração é que o país vai de vento em popa, a crescer mais do que a nossa vizinha Espanha, esse antro de socialismo venezuelano. Só que não!

São os sintomas do ímpeto reformista da Direita, que veio tirar o país do marasmo e da estagnação, entregando-o ao desenvolvimento e a prosperidade. O mais excitante que vai acontecer é a reedição do debate supino das bandeiras LGBTQ+ ou outras nos edifícios públicos, esse enorme problema nacional, depois de o Presidente da República, e bem, ter devolvido ao parlamento o decreto sobre as regras de utilização de bandeiras em edifícios públicos. Não há nada mais excitante, divertido e urgente para os portugueses do que ver o Paulo Núncio e a Rita Matias na Assembleia da República a explicarem por que se sentem tão ofendidos e tão tristes ao verem bandeiras coloridas nos edifícios da nação.

Verdadeiramente, as únicas crises no mundo neste momento são as criadas pela direita radical, que não consegue estar quieta. Da Ucrânia ao Irão, das mortes pelos combates à inflação. Para quem está tão preocupado com o declínio ocidental, não penso que haja nada nem ninguém a contribuir mais para tal do que estes ultramontanos petainistas meia-leca da «Nova Direita». Na Ásia esfregam-se as mãos, no Sul Global, suspira-se «finalmente».

Mas não se preocupem: isto não é o fim, é um solavanco. Todos os dias, mais e mais gente se apercebe do embuste. Esperemos apenas ir a tempo de salvar as democracias ocidentais, europeias e norte-americanas, do fosso, como André Villas-Boas fez com o FC Porto. E agora que o Campeonato do Mundo começou em terras americanas, haverá, na América do MAGA, coisa mais antiamericana do que o soccer? O presidente da câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, muçulmano de origem asiática e nascido em África, adepto do Arsenal desde a infância, estava no meio da multidão num bar desportivo apinhado de Brooklyn para ver o último jogo da equipa na Premier League. A festa acabou por transbordar para as ruas, onde o autarca e outro adepto célebre do Arsenal, Spike Lee, se juntaram à multidão, com o sistema de iluminação LED no topo do Empire State Building a acender-se, tingindo a fachada superior e o pináculo da torre de vermelho e branco, as cores do Arsenal.

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Hoje, o futebol, tal como o expresso, o ioga e outras importações outrora «exóticas», faz parte do quotidiano americano. Em 2025, os americanos passaram quase 80 mil milhões de minutos a vê-lo e somam já 62 milhões de adeptos, o que o coloca à frente do basebol como terceiro desporto preferido do país, atrás apenas do futebol americano e do basquetebol.

O contraste com o passado é flagrante. Em 1994, quando os Estados Unidos organizaram o Campeonato do Mundo pela primeira vez, comentadores como Charley Reese recebiam-no com desdém: «O Mundial de futebol está a chegar aos Estados Unidos e eu não quero saber. O futebol é antiamericano.» Tom Weir, por seu lado, comparou o argumento dos entusiastas «àquilo que os russos nos diziam sobre o comunismo», e até Jack Kemp, num debate na Câmara dos Representantes, condenou o futebol como «socialista europeu». Já em 2026, é o próprio Presidente Trump que chega a afirmar que a N.F.L. devia mudar o nome do futebol americano, uma vez que o verdadeiro futebol, claramente, é o jogo em que se chuta a bola.

Ninguém trava o tempo. A «nova» direita de 2016 já é a direita velha de 2026. Desfrutem do Mundial, conservadores, mesmo que vos saiba a comunismo.

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