António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

Terra dos Sonhos

A semana que agora finda está eivada de acontecimentos merecedores da maior atenção.

Desde a crise dos preços de vários bens – petróleo, casas cada vez mais difíceis de encontrar a custo racional, ou bens essenciais a que não podemos fugir, passando pela Assembleia Geral (AG) das Nações Unidas (ONU) onde se disseram coisas interessantes e outras, nem tanto, mesmo horripilantes e, a nível doméstico, a despedida de um músico, Jorge Palma, que se afirmou ao mais alto nível e que nos deu o título para este Visto, retirado por mim da leitura de um artigo no Expresso onde se afirma ter ele construído “uma inesquecível Terra dos Sonhos”. É que perante tanta adversidade, parece que estamos todos a perder os sonhos. Ali, no “Entre Quem Lê”, Rui Lage, em conversa com Pedro Miranda e com um bom punhado de vila-realenses, também nos falou da necessidade de se encontrarem novas utopias.

O choque entre visões do mundo díspares senão mesmo antagónicas foi bem visível na AG da ONU. Donald Trump continua a negar as alterações climáticas e referiu-se à Inteligência Artificial como Superinteligência tentando iludir a opinião pública mundial. Ou, simplesmente, está a considerar-nos imbecis? Depois, fala em “aniquilar a República Islâmica”, levando o país “ao inferno, sem qualquer hipótese de sobrevivência”. Perante isto é legítimo questionar: o que pretende com tais afirmações? Aniquilar é sinónimo de destruir, exterminar e arrasar.

Bem diferente, esta outra visão apresentada por Pedro Sanchez que no decurso do seu mandato viu crescer “forças egoístas, ignorantes e cruéis”, expressão do poder de oligarquias que “controlam a IA e os espaços digitais que moldam nossos medos e esperanças”. Sanchez tocou, sem medo, nas feridas – eles “desencadearam guerras ilegais”, “tratavam milhões de seres humanos como se fossem gado e retiravam ajuda a quem sofre mais da pobreza e da doença”. Por isso, hoje, vive-se com medos e desesperança, receando o dia de amanhã, os nossos e os que os nossos filhos estarão sujeitos a viver. E persiste na procura de “construir um mundo melhor”.

É neste contexto que bem se compreendem as palavras do Secretário Geral da ONU, António Guterres, no seu discurso de abertura desta AG, como que à guisa de despedida, apelando à importância de manter a ONU no seu desígnio inicial de que a paz é possível; a dignidade humana é universal; o poder da lei deve prevalecer sobre a lei do poder, respeitando e incentivando o multilateralismo pois, acrescentou, “juntos, podemos construir a paz, podemos restaurar a confiança e criar um mundo melhor para todos.” Para que a terra dos sonhos seja mais que utopia.

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