António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

A valorização da cultura local na construção do futuro

Consta-se que as comunidades e os seus dirigentes estão a valorizar aspetos da cultura local e, muitas vezes, exprimem-no através de compromissos assumidos perante candidaturas à UNESCO para o reconhecimento dessas expressões como Património Cultural Imaterial.

É assinalável essa consciencialização. Acarreta compromissos, mas as virtualidades que encerra elevam a autoestima das pessoas e contribuem para o reconhecimento de valores ancestrais que, afinal, moldaram a própria forma de ser dessas comunidades. São bons exemplos, entre nós, o Processo de Confeção da Louça Preta de Bisalhães, assim como os Caretos de Podence, em Macedo de Cavaleiros. O Cante Alentejano é outro bom exemplo.

Ouso, no entanto, trazer a este meu Visto do Marão uma outra realidade que a leitura de um artigo na Revista Memória Rural, que o Museu da Memória Rural, no Município de Carrazeda de Ansiães, publica, a propósito de um livro de Hugues de Varine. Traduz-se, essa consciência do valor do Património Cultural da comunidade, na criação de um Museu de Território, pode chamar-se-lhe, perfeitamente, ecomuseu, que naquele município existe há já alguns anos. E note-se, o núcle o principal encontra-se numa das freguesias do concelho, Vilarinho da Castanheira e não na sede. Os polos estão disseminados pelas freguesias. São o núcleo da Telha; do Lagar de Azeite; do Moinho de Vento; dos Moinhos de Rodízio e do Ferreiro e do Ferrador.

O artigo a que aludo, induziu-me uma outra reflexão a propósito das Festas de Verão das nossas aldeias, que parecem renascer por estes dias. Ao menos, aparentemente. Há mais movimentos por uns dias, aparecem carros que habitualmente não encontramos nas suas ruelas, os cafés enchem e até no restaurante é necessário reservar mesa. Num caso, ou noutro, até se veem mais pessoas nos trabalhos do campo. Mas é nas festas de verão que se nota mais vitalidade. Festas que vão mostrando cada vez mais mudanças no seu conceito e até nos públicos que pretendem satisfazer. Há uma comunidade laboriosa, que mantém viva a aldeia durante todo o ano; há um pequeno grupo dessa comunidade que organiza atividades diversas no decurso dos doze meses. Todavia, o programa da festa parece destinar-se mais aos que vêm nesses dias. Só que estes consideram cada vez menos a Festa como a sua Festa. E como se pode concluir do artigo em análise, está a falhar na sua conceção “aquela camada de matéria orgânica social, histórica e afetiva que nutre o território”, que produz desenvolvimento. Verifica-se, assim, uma contradição entre as vivências do ano e o epílogo e desvanece a construção do futuro.

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