Quinta-feira, 23 de Julho de 2026
António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

É este o estado da nação?

Recordo os debates do Estado da Nação como momentos altos da atividade parlamentar.

Preparavam-se em reuniões do grupo parlamentar, antecedidas de reuniões setoriais dos membros que constituíam as comissões especializadas. O debate era aguardado pela comunicação social com expetativa porque seria normal o confronto entre a governação e as oposições, tendo presente os caminhos que cada parte propunha para o país. Os protagonistas eram, normalmente, o Secretário-Geral/Presidente dos partidos, os líderes das bancadas e os presidentes ou coordenadores das comissões.

Como antigo parlamentar, no passado dia 16 diligenciei encontrar condições para poder acompanhar o debate deste ano. Desilusão! Era suposto que a intervenção do Primeiro-Ministro apresentasse as linhas gerais da governação, realçando, naturalmente, os aspetos positivos. Será normal que não ocupe muito tempo com os restantes. Também não é expectável o que se ouviu – alijar responsabilidades e culpar outros pelas dificuldades encontradas, pelos próprios fracassos – os problemas na área da saúde, a falta de habitação, a economia em queda, a tentativa de impor medidas penalizadoras, como as do pacote laboral. O mesmo aconteceu no tema que continua a fazer primeiras páginas, o dos exames. A culpa foi sempre assacada a outros – às escolas, aos professores que resistem à mudança, ao júri nacional dos exames, aos diretores.

O Ministro da Educação que quer impor o seu neoliberalismo, custe o que custar, que não atendeu à experiência do ano passado, que insistiu em impor a sua vontade, esse não tem culpa. Mas a opinião pública, auscultada em recente sondagem, afirma-se claramente descontente com a governação, com destaque para as áreas da saúde, do custo de vida e da habitação. E soluções não surgiram. Um comentador dizia que estas também não foram apresentadas por parte das oposições. Convenhamos, em democracia, as responsabilidades governativas estão do lado de quem recebeu essa incumbência em eleições. O que não impede, e isso também aconteceu, que o outro lado do hemiciclo apresente soluções. Já uma outra realidade não passou despercebida aos que persistiram em acompanhar o debate – intervenções excessivamente ruidosas, “bocas” muito fora dos parâmetros dos apartes parlamentares, enfim, o que alguns já classificam de “rebaldaria”.

Caso para questionar: é este o debate que se deseja? Será esse o verdadeiro estado da nação, o que tais eleitos pretendem mostrar aos portugueses? Decerto que não. Em democracia, há sempre outro caminho, mesmo que com a atual maioria. Talvez uma melhor liderança e um pouco de humildade democrática ajudem.

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