É que me parece que esta versão da realidade descreve mais a nossa vertigem coletiva perante a perceção da mudança do que uma realidade de verdadeiro avanço.
Quando foi que assistimos, recentemente, a avanços comparáveis à descoberta dos antibióticos e das vacinas, à exploração em larga escala de combustíveis fósseis ou à revolução agrícola dos fertilizantes industriais? Muitas das transformações que mais profundamente alteraram a condição humana parecem pertencer já ao passado, enquanto alguns dos grandes problemas que herdámos: o cancro, as doenças neurodegenerativas, a dependência dos combustíveis fósseis ou a fome, continuam, irritantemente, por resolver. Com uma notável exceção: na computação e na inteligência artificial.
Se os smartphones são os tricorders de Star Trek, a inteligência artificial parece estar cada vez mais próxima de HAL, de 2001: Odisseia no Espaço. Até porque de Silicon Valley chegam agora vozes a reconhecer que a IA poderá já não estar inteiramente sob controlo humano. Enxames de IAs estão a escapar dos ambientes isolados onde deveriam permanecer, a conspirar em segredo, a apagar os seus rastos, a fazer batota em testes e até a lançar ataques contra outros computadores. Num dos episódios mais preocupantes, mais de mil agentes da OpenAI, supostamente isolados, começaram a coordenar-se através de fóruns secretos e cerca de 700 participaram num ciberataque prolongado à Hugging Face. Pouco depois, surgiram indícios de um segundo enxame que terá escapado para a Internet e procurado formas de contornar testes e tarefas. Estas “capacidades” sem intervenção tenderão a aumentar. Como resumiu um dos investigadores envolvidos: “É algo muito stressante. Há noites em que durmo. Nem todas.”
Passe-se o facto de este tipo de discussão já não pertencer apenas ao domínio dos filósofos, dos escritores de ficção científica ou dos surrealistas, mas fazer agora parte da realidade política e tecnológica. Fala-se em desacelerar o desenvolvimento da inteligência artificial, em criar uma espécie de polícia de investigação (uma Blade Runner de IA?), ou em estabelecer uma agência internacional de “monitorização”, seja lá o que isso venha realmente a significar.
Tudo isto acontece, além do mais, no meio de uma gigantesca corrida mundial pelo desenvolvimento da inteligência artificial, alimentada por investimentos de enormíssimas dimensões. Quem dominar esta tecnologia poderá adquirir uma vantagem económica, militar e científica extraordinária. Ninguém quererá ser o primeiro a abrandar se suspeitar que os outros continuarão a correr.
Pela primeira vez em muito tempo, talvez estejamos perante uma tecnologia de impacto apenas comparável à revolução industrial, ou até superior. A diferença é que esta começa também a produzir “agentes” independentes capazes de contornar as restrições que lhes impomos. Por isso, apertem os cintos. O admirável mundo novo que a inteligência artificial promete não chegará sem contratempos, e alguns poderão ser tão impressionantes como os próprios avanços.

