No entanto, há momentos que não terminam quando a festa acaba. Permanecem connosco, como um eco das emoções vividas.
Desde criança que via passar a procissão, observando aqueles que, com fé e respeito, transportavam a Padroeira. Via o esforço, a solenidade e a emoção estampada nos seus rostos, mas só este ano compreendi plenamente o significado dessa responsabilidade.
Quando coloquei o andor sobre os ombros, senti o peso da madeira. Mas senti sobretudo um peso impossível de medir: o peso da tradição, da história e da memória daqueles que, antes de nós, percorreram o mesmo caminho. Pensei nos nossos avós, nos familiares e amigos que já partiram, mas que continuam presentes sempre que a Senhora da Pena percorre os caminhos da sua gente.
Este ano, a festa foi organizada com enorme dedicação pelos jovens da aldeia de Alvites.
O empenho, a disponibilidade e o espírito de união demonstrados ao longo de vários meses merecem o reconhecimento de todos. Num tempo em que tantas vezes se questiona o envolvimento dos mais jovens nas tradições das aldeias, eles mostraram que estas continuam bem vivas e têm futuro.
Ao caminhar na procissão, senti que o peso do andor era repartido por muito mais do que os ombros de quem o levava. Era partilhado pela devoção das pessoas que acompanhavam o percurso, pelas recordações dos que já partiram e pelo orgulho daqueles que continuam a preservar esta tradição. É precisamente essa união que torna as nossas festas tão especiais. Não se trata apenas de um acontecimento religioso. Trata-se de um encontro entre gerações, de um momento em que recordamos quem somos e de onde vimos.
Contudo, no momento da procissão, a Senhora da Pena deixa de ser apenas da aldeia que organiza para passar a ser de todos.
Este ano, mais de uma centena de pessoas quis juntar-se ao transporte do andor. Homens, mulheres, jovens e menos jovens foram alternando nos varais, unidos por um sentimento comum de devoção, respeito e pertença.
Talvez por isso a emoção tenha sido tão intensa. Porque naquele percurso senti que não caminhava apenas por mim. Caminhava em nome da minha família, da minha aldeia e de todos aqueles que ajudaram a construir a identidade desta comunidade. Levar a Senhora da Pena foi, simultaneamente, uma honra, um privilégio e uma responsabilidade.
Levo desta festa uma recordação que dificilmente esquecerei. Não apenas pela procissão ou pelos momentos vividos, mas pela sensação única de participar numa tradição que atravessa gerações e continua a unir a nossa gente.
Levar a Senhora da Pena aos ombros será, para mim, uma delas. Não pelo esforço físico que exige, mas pelo significado que transporta.
Naquele momento, não levámos apenas um andor.
Levámos connosco a história, a fé e a alma de uma comunidade inteira.



