Mais do que um estádio, o Monte da Forca simbolizou sempre a alma abandonada de um emblema que nunca virou as costas à sua história – mesmo perante um presente desprovido de facilidades.
Contudo, essa carga simbólica contrasta com a crua realidade do futebol nacional, onde a desigualdade entre o litoral e o interior é cada vez mais evidente e estrutural. No Campeonato de Portugal, especialmente na Série B, as disparidades são gritantes. Os clubes do litoral usufruem de maior visibilidade mediática, concentração populacional e, sobretudo, de um tecido empresarial denso e ativo, que permite captar patrocínios substanciais e diversificados.
No interior, a situação é radicalmente diferente. Os clubes vivem da boa vontade de meia dúzia de empresários locais, que, ano após ano, são chamados a “segurar as pontas”. São sempre os mesmos rostos, as mesmas empresas, os mesmos apoios – por mais louváveis que sejam. A capacidade de atrair novos investidores é quase inexistente, não por falta de competência dos clubes, mas por ausência real de alternativas económicas.
O SC Vila Real, com mais de 100 anos de história e uma forte ligação à cidade e à região, é constantemente obrigado a competir com orçamentos que nem de perto se comparam aos dos seus concorrentes costeiros. Esta disparidade traduz-se em limitações nas contratações, nas condições de treino, na formação e até na capacidade de planear uma época com estabilidade.
No fundo, pede-se aos clubes do interior que façam o mesmo percurso com metade dos recursos. A meritocracia no futebol, como em tantas outras áreas, esbarra nos limites da desigualdade estrutural.
É justo reconhecer o papel da Federação Portuguesa de Futebol como um sinal positivo, ao investir no novo projeto do Monte da Forca, devolvendo não só clube, mas a todos os clubes de Vila Real, um espaço digno e adequado às exigências do futebol moderno. Mas esse esforço, embora louvável, não pode ser isolado nem suficiente. É tempo de a cidade se unir em torno do seu clube. O SC Vila Real merece mais do que o esforço solitário da sua direção e dos seus poucos mecenas. Merece que toda a cidade se vire para si, que os seus empresários, instituições, autarquia e cidadãos assumam este projeto como uma causa coletiva. Porque o clube é um espelho da comunidade, e o seu sucesso é também o orgulho de todos.
O que se exige não é caridade, mas justiça desportiva e económica. A interioridade não pode ser um fardo eterno. A descentralização tem de deixar de ser uma promessa e passar a ser prática real: com incentivos, apoios e reconhecimento para quem trabalha em contextos mais exigentes.





